Cansados da cara-de-pau absoluta com que os políticos nos roubam no dia a dia, seja com desvios de verbas, seja com tráfico de influência, seja com salários altíssimos e privilégios descarados, cidadãos e cidadãs colocam-se à disposição para ocupar cargos públicos, principalmente para o nobre função da vereança.
Só que não.
Você já viu este filme, né? Incluindo esta expressão mais do que batida.
A “dança das cadeiras” nas eleições municipais neste ano só teve novidades por conta da cadeiras voadoras. Os candidatos agora precisam exigir seguro de vida e adicional de periculosidade contra possíveis danos físicos advindos de debates políticos.
Fora isso, mais do mesmo. Até o papo de “renovação na política” e “vote em mim, pois não sou político, sou como você, cidadão” já não gruda, nem com musiquinha pegajosa em alto-falante de carro de campanha, nem como bandeira de programa de governo.
Na última vez que votamos (eu não, cara-pálida) em um Salvador da Pátria que dizia ser da “nova política” e “não ser político”, nos ferramos. Aí voltamos para os velhos políticos mesmo. Ali, pelo menos, sabíamos como e quando seríamos roubados. Voto de cidadão consciente!
Mais do mesmo, menos vergonha na cara, como sempre. Sinto que aquele sentimento que se convencionou chamar de “vergolha alheia”, a vergonha que sentimos não por termos feito algo, mas uma queimação interna pela falta de decoro do que o outro veio nos propor, falar, apresentar.
Ultrapassagem do limite em vários campos: a inteligência, a informação, o preparo, o respeito, a consideração pelo eleitor. Uma humilhação pública, que o candidato assume, com orgulho e imodéstia, que passa por coragem, determinação. Ou que quer fazer passar.
A maneira como nossos conterrâneos se humilham, pedindo votos, é tão indecorosa como uma pessoa andando sem roupa no centro da cidade ao meio-dia. Seria ridícula se causasse riso, mas provoca o meu estômago, minha cabeça, minhas pernas, vontades todas físicas. De me esconder num buraco. Trancar-me dentro de um armário. Dormir. Desmaiar. Vomitar. Essas coisas.
O brasileiro não sabe votar. Não sabe como organizar partidos políticos. Não sabe como governar mas antes, como candidato, ainda não sabe como pedir voto. É indecoroso presenciar os candidatos a vereador prometendo coisas que não podem cumprir. Não sabem o básico: o que podem ou não fazer quando e se assumirem a função. Quais são os deveres de um vereador. Quais são seus poderes.
Nem vou falar dos candidatos folclóricos que confundem horário eleitoral gratuito com o programa do Ratinho. Vou dar de barato que, apesar de não saber como pedirem voto, tem candidatos que estão com boas intenções, sérias (hahaha).
Um candidato diz-me que vai “cuidar da Saúde”. Sei, da própria? O salário que vão ganhar já dá pra fugir do SUS. Outro que vai “cuidar da Educação”. Sei, seja bem-educado, polido, cortês, que já é um começo. Olha só, tem até aquele que declara que irá “cuidar dos bichinhos”, “dedicar especial atenção aos idosos”, “cuidar dos buracos” (esses são tão bem cuidados que se reproduzem, e passam bem) e um até que vai “olhar para a Arte”. Olhar para a Arte seria passar a frequentar exposições de pintura?
Eles prometem ações que só o Poder Executivo pode fazer. Desculpe-me o leitor ser tão didático, mas quem sabe algum deles esteja lendo isso aqui. Abrir escolas, ruas, construir moradias populares, levar água e esgoto para bairros que não têm, incentivar empresas a se instalarem na cidade com incentivos fiscais, é incumbência do prefeito e seus secretários, e não do legislativo (o poder do qual fazem parte os vereadores).
Aos vereadores, está reservada a tarefa de fiscalizar os atos do poder Executivo, chefiado pelo prefeito, auxiliado pelos secretários municipais; aprovar ou reprovar o quanto de dinheiro o Executivo poderá gastar no ano seguinte, projeto de lei também chamado de Orçamento; discutir e votar os projetos de lei que ordenam ações na cidade, enviados à Câmara pelo prefeito. Esta última deveria ser a função que mais tomaria tempo dos nobres vereadores, e é talvez a mais importante delas.
Propor e votar nome de ruas, avenidas e viadutos, propor moções de aplauso ou repúdio, títulos de Cidadão Piracicabano ou Piracicabanus Preeclarus (que bregueira) são “encheções de linguiça” e só servem para preencher a cota de propostas de leis que cada vereador é obrigado a cumprir por ano. Mas também servem de moeda de troca junto a grupos de apoio.
Ser vereador, na verdade, é tarefa chata, complicada, que exige estudo das leis do município, do estado e do país, que exige conversa com vários grupos que formam a sociedade e com outros ocupantes de cargos públicos em outras esferas, mas é uma tarefa necessária para o uso do dinheiro dos impostos que todos pagamos a pretexto do Município prover os serviços combinados (quem combinou com quem? eu não estava lá) para o Bem Comum. Pelo menos no nosso atual ordenamento governamental, representativo, jurídico, social.
Nada disso, desconfio, é vislumbrado pelos candidatos a vereador. Vagamente imaginam que “vão fazer a diferença”, sem saber definir, nem para si mesmos, o que signfica isto.
Essa “diferença” se traduz melhor em “vontade de poder”. Mesmo que “poder” signifique, para 99% dos candidatos, andar de carro oficial, viajar, com passagens e hospedagem pagas, para conhecer outros lugares em congressos nacionais ou até internacionais pagos com o dinheiro da Câmara de Vereadores, poder ter auxílio-paletó, auxílio-residência, auxilio-combustível, auxílio-gabinete, auxílio-alimentação, auxílio-auxílio.
E para justificar a disposição de ocupar uma função que “ninguém quer, mas alguém precisa assumir”, tirar limpinho R$18.500,00, caindo na sua conta-bancária todo santo mês. Sem preocupação de ser competente, de ser preguiçoso, de ser um vereador que só ocupa uma cadeira no plenário e um gabinete com funcionários, sem o perigo de ser retirado do cargo a não ser com o fim do mandato, e ainda com a prerrogativa de aumentar o próprio salário quando achar conveniente.
Pensando bem, a falta de vergonha, já no pedido de voto, é quesito necessário para exercer cargo eletivo. Você pode até pedir voto querendo aparentar honestidade e boas intenções, mas já partimos do princípio, escaldados que estamos, que o candidato está querendo coisa que não merece – no caso, a mamata toda que faz parte do pacote.
Como diziam os romanos, “a mulher de César não só precisa ser honesta, mas parecer honesta”. No Brasil, isso não é possível, já que todos se esforçam para parecer políticos, cuja falta de vergonha é compensada com um milhão de benefícios, incluindo os ilícitos.



