Vestibular da Unicamp abre inscrições hoje (3/8), veja dicas de estudo para ser aprovado
Educadora explica como funciona o processo seletivo, os principais desafios da prova e como organizar os estudos para conseguir uma vaga
O vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) abre inscrições nesta segunda-feira (3). Os candidatos têm até o dia 31 de agosto para realizar as inscrições pela internet, mediante o pagamento de uma taxa de R$ 230. Reconhecido pela excelência acadêmica e pela tradição em inovação, o processo seletivo da instituição é um dos mais disputados do Brasil. São oferecidas 2.523 vagas via vestibular, do total de 3.358 vagas regulares para ingresso na universidade em 2027. No vestibular de 2026, foram 61.698 inscritos para o processo seletivo.
Crédito: Magnific
Entre as novidades deste ano, estão: a criação de dois novos cursos, Relações Internacionais e o de Inteligência Artificial e Ciência de Dados; a possibilidade de os candidatos da cidade de São Paulo indicarem a região da capital em que desejam realizar as provas; além da inclusão de mais duas cidades paulistas para realização da prova da primeira fase, Vinhedo e Paulínia.
As provas são realizadas em 39 cidades brasileiras, sendo 33 do estado de São Paulo: Americana, Araçatuba, Barueri, Bauru, Belo Horizonte, Botucatu, Bragança Paulista, Brasília, Campinas, Curitiba, Fortaleza, Franca, Guarulhos, Indaiatuba, Jundiaí, Limeira, Lorena, Marília, Mogi das Cruzes, Mogi Guaçu, Osasco, Paulínia, Piracicaba, Presidente Prudente, Recife, Ribeirão Preto, Salvador, Santo André, Santos, São Bernardo do Campo, São Carlos, São João da Boa Vista, São José do Rio Preto, São José dos Campos, São Paulo, Sorocaba, Sumaré, Valinhos e Vinhedo.
“O vestibular da Unicamp tem como principal característica ser um teste de resistência intelectual, bem diferente de outros processos seletivos que focam na simples memorização de conteúdo. A banca organizadora, Comvest, projeta a prova para selecionar candidatos que demonstrem não apenas conhecimento, mas também a capacidade de análise crítica, argumentação e clareza na comunicação”, afirma Fernanda Silveira, coordenadora do Ensino Médio do colégio Progresso Bilíngue, de Campinas (SP).
Como é o vestibular da Unicamp?
O vestibular da Unicamp é estruturado em três fases. A primeira fase, programada para 18 de outubro de 2026, é composta por uma prova objetiva, com 72 questões de múltipla escolha, que abrange Linguagens, Matemática, Ciências Humanas e Ciências da Natureza. As questões costumam ser interdisciplinares e exigem leitura atenta de textos, gráficos e tabelas. “A primeira etapa é decisiva, porque já elimina muitos candidatos e define a classificação inicial”, alerta Fernanda.
A segunda fase é realizada em dois dias consecutivos de provas dissertativas, programados para ocorrer nos dias 29 e 30 de novembro. No primeiro dia da segunda fase caem questões de Português, Literatura, Inglês e uma redação (a Unicamp oferece duas propostas de tema em gêneros variados; o candidato escolhe uma). No segundo dia da segunda fase, os exames incluem Matemática, Ciências Humanas e Ciências da Natureza, conforme a carreira escolhida.
“Como a segunda fase exige respostas abertas, o candidato deve responder com profundidade, e ter clareza na exposição do raciocínio. Não basta acertar o resultado, é preciso demonstrar domínio do conteúdo e organizar a resposta de forma estruturada, como se fosse um mini ensaio ou relatório”, afirma. Há ainda uma terceira fase, com provas específicas aplicadas apenas para cursos como Arquitetura, Artes e Música.
Antes da primeira fase, haverá provas de Habilidades Específicas para candidatos aos cursos de Música (com envio de vídeos pela internet, entre os dias 14 e 30 de setembro). Para os demais cursos que exigem provas específicas (Artes Cênicas, Artes Visuais e Dança), elas ocorrerão entre 4 e 12 de dezembro.
Planejamento dos estudos
A coordenadora do colégio Progresso Bilíngue afirma que é fundamental elaborar um cronograma, com revisões periódicas e simulados cronometrados. “Organizar o tempo entre as disciplinas, alternando estudo e descanso, ajuda a evitar acúmulo de conteúdo e a manter o rendimento”.
A docente também orienta aos candidatos investirem em repertório sociocultural: ampliar o conjunto de conhecimentos e referências pessoais, lendo jornais, revistas e livros, assistir filmes e documentários, e acompanhar debates atuais – tudo isso ajuda a construir bons argumentos para as perguntas discursivas e a redação.
Entre as orientações, estão:
- Estude a teoria, por área do conhecimento, realizando exercícios logo após cada tema;
- Faça revisões focadas nos conteúdos mais cobrados ou dos quais têm mais dificuldade;
- Treine respostas discursivas e a redação;
- Faça simulados completos com tempo cronometrado semelhante à aplicação real de prova.
Uma organização regular de três horas diárias é um cronograma que assegura uma preparação equilibrada, que pode ser dividido da seguinte forma: revisão rápida de 20 minutos da matéria estudada no dia anterior, para fixação do conteúdo; 75 minutos de estudo de teoria seguidos de exercícios; 10 minutos de descanso mental e pausa para um lanche; mais 75 minutos de estudo de teoria seguidos de exercícios.
Ao longo da semana, é fundamental que a rotina de estudos garanta a distribuição das disciplinas das diferentes áreas de conhecimento, evitando que o estudante fique sobrecarregado com conteúdos de uma mesma área em um mesmo dia. Algumas combinações possíveis são: História e Química; Matemática e Geografia; Língua Portuguesa e Biologia.
Também é importante que um tempo específico seja reservado para a Redação, assegurando a prática da escrita semanalmente, com tempo controlado e com recurso próprio, isto é, sem consultas a fontes e materiais externos, simulando a condição real do vestibular.
A redação da Unicamp
Um dos diferenciais do vestibular da Unicamp é a prova de redação. O candidato recebe duas opções de tema, em gêneros como artigo de opinião, carta, manifesto ou resenha, e deve escolher uma para desenvolver.
A docente do Progresso salienta que essa variedade exige não só domínio da norma culta, mas também repertório cultural amplo. Ela recomenda treinar diferentes gêneros textuais e focar na estrutura. “O avaliador busca textos claros, bem estruturados, e que dialoguem com a proposta apresentada. O candidato deve praticar redações abordando temas atuais e aprendendo a organizar o texto com introdução, desenvolvimento e conclusão coesos, além de justificar bem seus argumentos”, orienta.
Livros obrigatórios
O vestibular cobra todos os anos uma lista de obras literárias obrigatórias, divulgados pela organização com antecedência, permitindo aos candidatos mais tempo para leitura e estudo aprofundado. Entre os títulos escolhidos estão clássicos e obras contemporâneas que dialogam com diferentes tradições, estilos e gêneros.
A leitura dessas obras segue sendo uma das etapas mais importantes e desafiadoras da preparação. A cada edição, as listas de livros propõem um diálogo entre diferentes épocas, estilos e contextos sociais, exigindo dos candidatos não apenas a leitura integral, mas também uma compreensão crítica e contextualizada.
Os livros costumam aparecer de maneira interpretativa e contextualizada, seja por meio de trechos, seja em questões que exigem a compreensão de temas, estilos literários, vozes narrativas e relações com outros textos ou áreas do conhecimento. Por isso, decorar resumos não é suficiente. “Para acertar as questões, o candidato precisa entender a obra como um todo, reconhecer suas marcas principais e saber interpretar o que o texto sugere, grande parte das vezes de forma implícita”, afirma Fernanda.
O ideal, segundo a educadora, é adotar uma leitura ativa e contínua dos livros obrigatórios, distribuída ao longo do ano. O estudante deve começar com uma primeira leitura integral, sem preocupação excessiva com análise, apenas para compreender enredo, personagens, temas centrais e o tom da obra.
Em um segundo momento, vale retomar os textos com foco mais analítico, observando contexto histórico e social, características de estilo, narrador, linguagem e possíveis diálogos com questões contemporâneas, aspecto muito valorizado pela Unicamp. “Fazer anotações próprias, fichamentos ou mapas mentais ajuda a consolidar ideias, assim como relacionar as obras entre si e com outros textos, filmes ou notícias”, recomenda.
Confira um resumo de cada obra:
1. A vida não é útil (2020), de Ailton Krenak: em reflexões provocadas pela pandemia de covid-19, o pensador e líder indígena aponta as tendências destrutivas da chamada “civilização”: consumismo desenfreado, devastação ambiental e uma visão estreita e excludente do que é a humanidade. A obra reúne cinco textos adaptados de palestras, entrevistas e lives realizadas entre novembro de 2017 e junho de 2020, com pesquisa e organização de Rita Carelli.
2. Canções escolhidas, de Paulo César Pinheiro: “Canto das três raças” (com Mauro Duarte), “Cordilheira” (com Sueli Costa), “Desenredo” (com Dori Caymmi), “Estrela da terra” (com Dori Caymmi), “Evangelho” (com Dori Caymmi), “Mordaça” (com Eduardo Gudin), “Na volta que o mundo dá” (com Vicente Barreto), “Navio fantasma” (com Francis Hime), “O dia em que o morro descer e não for carnaval” (com Wilson das Neves), “Pesadelo” (com Maurício Tapajós), “Velho arvoredo” (com Hélio Delmiro), “Vento bravo” (com Edu Lobo), “Viagem” (com João de Aquino) e “Vontade de chorar” (com Ivor Lancelotti).
3. Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis: o finado Brás Cubas decide contar sua história por uma ótica bastante inusitada: em vez de começar pelo seu nascimento, sua narrativa inicia-se pelo óbito. Enquanto rememora as experiências que viveu, o defunto-autor narra as suas desventuras e revela as contradições da sociedade brasileira do século XIX, por meio de uma análise aprofundada de seus personagens. O livro retrata o período do Brasil Império, especialmente a elite burguesa do Rio de Janeiro, marcada por mudanças sociais e ascensão de novos valores.
4. Morangos mofados (1982), de Caio Fernando Abreu: obra mais célebre do autor, o livro faz transbordar de cada página a angústia, o desassossego e o estilo confessional que o consolidaram como uma das vozes mais combativas e radicais de sua época. A prosa visceral dos dezoito contos contidos na obra é potencializada pela hesitação coletiva de um país que vislumbrava a redemocratização ante a falência incipiente do regime militar. Traduzindo as inconstâncias humanas mais profundas, o livro continua, ainda hoje, arrebatando leitores de todas as gerações. Para a prova, a banca organizadora elencou seis contos: “Diálogo”, “Além do Ponto”, “Terça-Feira Gorda”, “Pêra, uva ou maçã?”, “O dia em Júpiter encontrou Saturno” e “Aqueles dois”.
5. No seu pescoço (2017), de Chimamanda Ngozi Adichie: os doze contos que compõem o livro trazem a sensibilidade da autora, voltada para a temática da imigração, da desigualdade racial, dos conflitos religiosos e das relações familiares. Combinando técnicas da narrativa convencional com experimentalismo, a autora nigeriana parte da perspectiva do indivíduo para atingir o universal que há em cada um de nós e, com isso, proporciona ao leitor a experiência da empatia, bem escassa em nossos tempos.
6. Olhos d’água (2014), de Conceição Evaristo: coletânea de 15 contos em que a autora foca seu interesse na população afro-brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem. Sem sentimentalismos, mas sempre incorporando a tessitura poética à ficção, seus contos apresentam uma significativa galeria de mulheres: Ana Davenga, a mendiga Duzu-Querença, Natalina, Luamanda, Cida, a menina Zaíta. Elas diferem em idade e em conjunturas de experiências, mas compartilham da mesma vida difícil, evocando dilemas sociais, sexuais e existenciais, numa pluralidade e vulnerabilidade que constituem a condição humana.
7. Os funerais da Mamãe Grande (1962), de Gabriel García Márquez: os oito contos do livro misturam o trivial e o fantástico, a trágica monotonia da vida de aldeia Macondo cortada por relâmpagos de fatalidade que jogam luz inesperada e estranha sobre a alma das pessoas – com a densa humanidade e a mestria artística do grande escritor colombiano. O autor faz uma viagem sentimental por sua cidade natal, sem deixar de lado um olhar crítico sobre a sofrida realidade social, a pobreza da terra e o domínio dos coronéis.
8. Prosas seguidas de Odes mínimas (1992), de José Paulo Paes: marcado pela lucidez, ironia, concisão verbal e aversão ao sentimentalismo, a obra percorre os principais temas que compõem a obra de José Paulo Paes, um dos principais nomes da literatura brasileira do século XX. Entre outros motes, os poemas abordam o amor, a força da memória, a proximidade da morte e a crítica política -- com alguma descrença, mas também com intenso lirismo e uma boa dose de experimentação formal.
9. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), de Lima Barreto: o livro tece uma biografia do personagem Gonzaga de Sá; um homem de letras que fugiu de ser doutor. Por meio do texto, transparece o comportamento da aristocracia do Rio de Janeiro do começo do século XX, além dos diversos problemas sociais que afligiam o próprio autor. Trata-se de um dos livros menos conhecidos do escritor, e consequentemente pouco lido e estudado, apesar de ser um dos romances mais interessantes da literatura brasileira do início do século XX, haja vista o caráter inovador de sua narrativa, que rompe com os padrões convencionais do realismo do século XIX, ainda dominantes na prosa brasileira do período.
Saúde emocional e bem-estar
Preparar-se para um vestibular tão concorrido envolve também cuidar da saúde mental. Fernanda reforça que é natural sentir pressão em situações assim, mas é importante manter o equilíbrio. “É comum que o candidato sinta a pressão diante de uma prova com alto nível de concorrência. Técnicas de respiração, organização de rotina de estudos e simulados em condições semelhantes às do exame ajudam a diminuir a ansiedade e aumentar a autoconfiança”, orienta.
Alternar sessões de estudo com pausas regulares, praticar atividades físicas e manter um bom sono são medidas simples que fazem a diferença. Segundo Fernanda, “quem encara a preparação com seriedade percebe que o processo vai além da aprovação; independentemente do resultado, o candidato amadurece intelectualmente e adquire habilidades que o acompanharão em toda a trajetória acadêmica e profissional”, finaliza.
A especialista
Fernanda Silveira é pedagoga e psicopedagoga, com 10 anos de experiência na gestão pedagógica do Ensino Médio, com atuação voltada ao acompanhamento acadêmico dos estudantes e ao fortalecimento de suas trajetórias rumo ao vestibular e às suas escolhas para o futuro. Atua como coordenadora pedagógica do Ensino Médio das unidades do Progresso Bilíngue em Campinas (Cambuí e Taquaral).




