
Conteúdos sobre corpo, alimentação, exercícios e emagrecimento fazem parte da rotina das redes sociais, mas a exposição a esse tipo de material pode ter efeitos diferentes para quem enfrenta um transtorno alimentar. Uma pesquisa de doutorado da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP investigou como pacientes com esses transtornos vivenciam o uso das plataformas digitais, e identificou relatos de comparação, frustração e aumento da insatisfação com o próprio corpo.
O trabalho deu origem ao artigo Impacto do uso das redes sociais nos transtornos alimentares: elaboração e validação de vídeo interativo, com primeira autoria de Raquel Borges de Moraes, que estuda o tema desde a iniciação científica. Ao longo da trajetória acadêmica, a pesquisadora passou de uma investigação sobre os efeitos das redes sociais em pacientes com transtornos alimentares para a análise de como esse ambiente poderia ser considerado um recurso terapêutico. Isso porque, segundo ela, as plataformas já estavam presentes na rotina dos pacientes, mas não faziam parte das estratégias utilizadas no tratamento. “As redes sociais faziam parte da vida dessas dessas adolescentes, dessas pessoas que estavam sendo tratadas, mas isso não estava sendo incluído como parte do tratamento, então, ficava um buraco, ficava uma lacuna no tratamento dos pacientes.”
Entre os relatos analisados, a comparação com os padrões estéticos (ou de beleza) apresentados nas redes aparece como um dos principais fatores de incômodo. Segundo Raquel, alguns pacientes passaram a se sentir frustrados com a própria vida e o corpo depois de consumir determinados conteúdos. Em alguns casos, a insatisfação com alguns aspectos nem existia antes do contato frequente com essas imagens. “Os principais relatos dos pacientes é exatamente sobre isso, que eles se sentem muito diminuídos, frustrados e fracassados o tempo todo, que eles vão percebendo que a vida deles é muito ruim e que nunca vão ser pessoas de sucesso se eles não tiverem determinado corpo. Às vezes, eles nem tinham nenhuma insatisfação com algumas partes do corpo ou da própria vida e passaram a ter.”

Instagram e TikTok foram as plataformas mais citadas pelos participantes. Para a pesquisadora, o predomínio de imagens e vídeos contribui para essa influência, já que a aparência ocupa um papel central na forma como as informações são apresentadas. “As plataformas que mais aparecem são as plataformas de imagem e vídeo, então Instagram e TikTok, majoritariamente; o WhatsApp aparece como uma forma de comunicação, mas não na questão da influência. Mas as plataformas que têm imagem e texto são as piores, porque a comunicação é feita a partir da imagem e a partir da estética”, diz a pesquisadora.
Impacto não é só tempo de tela
O problema não está apenas nos conteúdos que apresentam padrões de beleza, mas também naqueles que associam determinadas práticas adoecidas à ideia de saúde. Dietas restritivas, exercícios em excesso e métodos de emagrecimento podem ser apresentados, nessas redes, como escolhas para melhorar a qualidade de vida. Para Raquel, o risco aparece quando essas informações passam a ser seguidas de forma rígida, sem reflexão ou acompanhamento profissional. “Geralmente é quando essa pessoa, esse usuário da rede, fica muito suscetível, seguindo aquilo que ele encontra nas redes sociais e começa a fazer isso de uma forma muito cega e muito rígida.”
Adolescentes estão entre os grupos que exigem maior atenção, já que ainda estão desenvolvendo ferramentas para avaliar criticamente as informações que recebem. Além das transformações físicas e sociais próprias dessa fase, eles passam a ter contato com uma grande quantidade de conteúdos sobre aparência e comportamento. “Os adolescentes costumam ser mais vulneráveis a esse tipo de influência, porque eles não têm muito senso crítico. Eles estão tendo ali as primeiras experiências sociais, as primeiras relações com o mundo externo, e pelas redes vão ser expostos a conteúdos que ainda não têm noção do que se trata.”
Por isso, o impacto das redes não pode ser avaliado apenas pelo tempo de permanência nas plataformas. O conteúdo consumido e a forma como ele afeta emocionalmente o usuário também precisam ser considerados. Mesmo uma exposição curta pode representar um risco quando provoca sofrimento ou intensifica sentimentos negativos. Raquel argumenta que a pessoa pode passar apenas cinco minutos nas redes sociais mas, se toda vez ela entra em contato com algum conteúdo que a deixa mal, aflita, angustiada, já é um comportamento de risco.
Produção de vídeo e estímulo à relação crítica
A pesquisa não propõe, porém, que as redes sociais sejam retiradas da rotina dos pacientes. A ideia é desenvolver autonomia para que eles consigam reconhecer conteúdos prejudiciais, questionar os padrões apresentados e escolher o que seguir. Nesse processo, a pesquisadora defende a necessidade de “ressignificar esses conteúdos quando chegam até as crianças e adolescentes”, ajudando-os a compreender que as redes sociais “só vão mostrar a melhor versão mesmo e estimulando-os a uma relação mais crítica com o que aparece nas telas”. E, a partir disso, possibilitar que os usuários desenvolvam a capacidade de lidar com as adversidades das redes, bem como as dificuldades fora dela. “Retirar as redes sociais não contribui para o processo de aprender a lidar com os problemas que o mundo apresenta para nós.”
Como parte do trabalho, os resultados das entrevistas realizadas e do grupo focal – técnica de pesquisa que reúne participantes para discutir e compartilhar percepções e experiências sobre determinado tema – deram origem a um vídeo educativo. A proposta foi transformar os achados da pesquisa em um material acessível ao público e, ao mesmo tempo, dar visibilidade às experiências relatadas pelos próprios pacientes. Segundo a pesquisadora, o objetivo era obter um material que sintetizasse tudo aquilo que foi encontrado e oferecesse um retorno para a sociedade sobre o conteúdo da pesquisa.
O vídeo foi divulgado no Instagram e no YouTube, mostrando aspectos das visualizações e o alcance das imagens. O material, contudo, não foi avaliado quanto às possíveis mudanças no comportamento ou no conhecimento de quem o assistiu. A produção funciona, assim, como uma ferramenta de divulgação científica construída a partir dos relatos dos participantes e dos resultados obtidos ao longo da investigação.
Matéria: Susana Oliveira | Jornal da USP.



