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Não sei o que o mundo espera de mim. Mas eu sei o que quero do mundo.
Eu quero vingança. Isso mesmo Eu quero me vingar do mundo. Pois tudo o que eu sempre quis, nunca tive.
Mentira, tive sim. Tive porque arranquei da mão do mundo. Esse mundo véio sem porteira que o meu vizinho Jonas brinca, dizendo rindo, que não tem jeito mesmo, só Jesus na causa.
Não consigo ver desse jeito. Só rio quando consigo o que eu quero. Não consigo dar uma risada assim, sem mais nem menos, numa conversa na calçada, sem utilidade, às sete da manhã.
O mundo quer que eu me ferre. Que eu me foda. O mundo nunca quis que eu fosse alguma coisa, nunca me quis dar nada, nunca quis que eu me desse bem.
Minha avó e meu pai, cresci na casa deles. Minha mãe nunca conheci. Chamava minha avó de mãe, e fiquei sabendo tarde que ela era minha avó. Já comecei sem uma mãe.
Já percebi na escola que muitos meninos, e meninas, tinham o que eu queria. Por que eu não tinha as mesmas coisas? Não achava certo. Meu pai também não, e muitas vezes minha avó foi levar coisas pra ele na cadeia. Já comecei sem pai também, pelo menos não muito.
Minha avó tentou. Juro que tentou. Me mostrou que era só eu ser um menino bonzinho, ir à Igreja, fazer o que Deus mandava, que Deus iria me favorecer. Que eu ia ter minha recompensa. Era só ser bonzinho.
Mas eu vi que as pessoas que tinham o que eu queria não eram boazinhas. Eram bem filhas da puta, como o diretor da escola, que tinha um carrão novo e, os alunos ficaram sabendo, batia na mulher. O professor de História vendia maconha para os alunos, e pegava as alunas menores de idade. E o dono da boca do meu bairro numa hora tinha uma picape maneira, noutra hora um Camaro, muito mais maneiro que o do diretor da escola, andava com roupa de marca, com uma mulherada junto.
Com o tempo, vi que as meninas gostavam de mim. Alguma coisa eu tinha, admito. Alguma coisa o mundo, a vida, tinha me dado. Aproveitei o que pude, peguei todas as meninas do meu bairro que tinham idade. Ó: quando digo pegar, não é como dizem hoje, é pegar mesmo, o que a gente chamava de faturar, comer.
Acho que não dá pra ser mais claro.
Com o tempo, o que eu tinha serviu pra outras coisas. Eu arranquei do mundo o que ele não me dava de jeito nenhum. Fui na onda do cara do Camaro, eu dei o meu jeito. Se precisasse, eu cortava a mão e o braço do mundo, eu queria a minha vingança.
Era pra virar a história aqui, se quiser fique à vontade, mas na sua cabeça. Na história de verdade, não tem virada não. É tudo uma bosta.
Não me converti pra igreja evangélica não, mesmo sendo bom, do ponto de vista da grana. Um negócio bom. Mas tem coisa que eu não consigo fingir.
Nem conheci ninguém que valesse a pena. Mulher a gente fica um tempo ou pega por uma noite, elas querem o seu dinheiro, nenhuma presta, a verdade seja dita.
O que acaba com a gente, se não toma cuidado, é a maldita. A droga, o entorpecente. Não vou fingir moralista. Eu gosto dessa pôrra. Mas ela acaba com tudo.
A gente adia as coisas. E a vingança, fica mais longe. “Amanhã é o dia”. E se droga.
O mundo até parece bom, parece que dá pra viver mais um pouco, acreditar que alguma coisa vale a pena.
Quando vê, não tem tempo, ânimo, vontade, não tem espaço mais pra vingança.
Nem perca mais seu tempo. Minha vingança ainda não veio. Não sei se vai vir.
Eu fodi tudo, porque eu fiquei lôco nesses dias, meti a faca na minha avó. Nem percebi que era ela, quando vi, tinha andado o bairro inteiro pingando sangue do meu braço, acho que ela reagiu de alguma forma. Quando voltei, ela estava no chão, parecia um saco de batatas, no meio de uma poça vermelha.
Justo a minha avó, minha mãe, que dizia que eu tinha de ser um menino bonzinho.
A polícia me fez tomar um banho antes de me levar no camburão. Fui embora e não voltei mais, não senti nada. A roupa que eu pus depois da ducha minha avó tinha colocado em cima da minha cama, um dia antes, com cheiro de Comfort.
Acho que foi o mundo que se vingou de mim. Nem sei o que eu fiz de mal antes de qualquer coisa, a não ser ter nascido.
Depois disso, nada do que eu queria eu tinha, e eu arranquei tudo o que quis dele.
Ele se vingou de mim no meu primeiro vacilo.



