Você diz "tchau" quando eu digo "oi"
Sentados o que são a favor, os que são contra fiquem em pé

Na época em que eu fazia teatro, afogueado pelos hormônios da juventude, meus companheiros e companheiras da arte cênica adoravam um certo dramaturgo alemão chamado Bertolt Brecht.
Este homem - que dizia, “aquele que não enfrenta provações nem mesmo pode ser chamado de homem” - escolhe intitular uma de suas propagandas políticas em forma de peça teatral de “Aquele que diz Sim, Aquele que diz Não”.
Umas das teses sem-vergonhas que este hábil artesão - sim, não posso negar sua habilidade - defendeu nesta peça, joia fosca de uma coleção inteira de bijuterias, foi que cada um deveria declarar, de forma a que ninguém tivesse dúvidas, a sua filiação política, à esquerda ou à direita. Assim, seria mais fácil aos de esquerda - a facção a qual fazia parte - identificar quem eram os inimigos das classes trabalhadoras.
Rotular o direitista como “Aquele que diz Não” e o esquerdista de “Aquele que diz Sim”, é recurso tão velho como andar pra frente, como diz meu pai. Usado por Maniqueu, Zoroastro e as religiões monoteístas, que explicam o universo dividindo-em duas partes: o Bem e o Mal.
Brecht, explicitamente, está dizendo que o Bem é de esquerda, e o Mal, de direita.
***
Dividir tudo em duas partes, e nada mais, é recurso que pode simplificar o entendimento do mundo para fins didáticos. Nesta estratégia, com o tempo, o mundo se revelará mais complexo. Assim é para quem estuda filosofia, por exemplo, ou teologia de qualquer grande religião - de forma aprofundada, bem entendido, e não só rezando o terço ou frequentando cultos de exorcismo.
Ou pode ser uma tática que toma os foros da estratégia inteira. Como os partidários de determinada igreja, que chama as outras de Babilônia, seita ou falsa religião, ou os militantes de partidos ou de figuras isoladas, como Lulanaro ou Bolsolula. Para todos os citados, há sempre a necessidade de se ter um inimigo contra quem se luta.
Saber identificá-lo é fundamental, por isso as cartilhas ideológicas são tão necessárias. Não, não existem edições impressas ou em PDF desses manuais: é inútil você digitar no Google “Cartilha de como ser um bolsonarista” ou “Cartilha de como defender Lula em qualquer circunstância”.
As cartilhas são conjuntos de ideias, quase todas preconceituosas ou sem base, sobre como funciona o mundo inteiro, mas especialmente, como funciona o inimigo e suas artimanhas maquiavélicas. Elas se baseiam nas convicções mais profundas de quem nelas acredita, e foram criadas por líderes dessas facções. As “teses” são espalhadas, ao longo de muitos anos, pela mídia ou pessoalmente, em lugares onde se movimentam os grupos: igrejas, programas de rádio, universidades, movimentos estudantis, propagandas eleitorais gratuitas, e em qualquer local onde houver gente.
Somente “pegam” porque, como disse, se baseiam nas crenças mais profundas de quem quer acreditar nelas. Arremata-se a crença com um corpo para essas ideias encarnarem. Hoje, temos dois deles à solta por aí, ambos espalhando seu veneno pelo mundo: Lula e Bolsonaro.
Estamos num tal ponto, que até a frase do Cristo: “Que seu sim seja sim, que seu não seja não”, pode ser interpretada de acordo com ideologia à esquerda ou à direita, dependendo com qual delas você identifica o Sim ou o Não.
Para quem vê graça em Brecht, o Sim é a Esquerda.
Para os Beatles, podemos dizer “sim” ou ‘não”, o problema é quando dizemos qualquer uma das palavras e não chegamos a um acordo. No discurso da canção, o beco sem saída, cuja solução não é proposta em seus versos, existe na discordância mais básica numa simples relação a dois (não importa se amorosa, de amizade ou casual):
Você diz sim, eu digo não
Você diz “pare”, eu digo “vai”Oh, não
Você diz tchau e eu digo olá,Olá, olá
Eu não sei porque quando você diz tchau, eu digo oláLennon e McCartney, “Hello, Hello”. Tradução minha.
O que aqui na Caipirolândia é visto como um sinal de esperteza, para os cabeludos de Liverpool é um problema: “Quando eu ia com o milho, ela voltava com a farinha”.
Frase esta que vai servir de gancho para eu encerrar esta crônica um tanto desorientada nas ideias: os que me apertam contra a parede, dizendo “sim” ou “não”, no fim das contas, são todos farinha do mesmo saco.



