Você pode até dizer que eu sou um sonhador. Mas eu não sou o único.
John Lennon, Imagine (tradução minha, livre, leve e solta)
De um estado mental que nos apresenta filmes dentro da cabeça durante o sono, o sonho evoluiu para um desejo pessoal, reprimido, morador das vastidões interiores da alma.
Algo que se deseja muito – uma casa, um carro, um diploma – passou a ser um sonho.
Também pessoas ou relacionamentos – um namorado, uma esposa, uma família, um amigo que consegue te ouvir sem condenar – passaram a ser sonhos.
Ou empreendimentos – tornar a minha empresa a melhor deste ramo, inovar com um produto que vá mudar o mercado, o Brasil ou o mundo, tornar-me milionário com ela.
E também desejos mais abstratos – um país mais justo, um país mais igualitário, o fim da fome, a paz no mundo, um mundo melhor, um mundo onde todos sejam iguais, um mundo unido que detenha as mudanças climáticas – passaram a ser sonhos, em contraposição aos pesadelos do mundo concreto, do dia-a-dia.
Podemos até dizer que há sonhos coletivos – do Brasil ser um país rico, ou igualitário, ou justo, ou menos corrupto – mas estes andam em falta ultimamente e deles não quero falar, por falta de experiência coletiva recente.
É estranho, porém, associar o sonho mental, que acontece durante o sono, a algo que se deseja, geralmente algo que beneficiará o sonhador. Os sonhos normalmente não são bons, são esquisitos, bizarros, confusos – quem já sonhou aí estar sem calças no meio de uma multidão, na sala de aula onde estuda, ou no meio da arquibancada, num jogo do Corinthians (ou para um corinthiano, no meio da torcida do Palmeiras)? Não chega a ser pesadelo, mas raramente um sonho é muito bom. Mesmo quando revemos uma pessoa querida que já faleceu, e falamos com ela, costuma ser algo bom, mas triste, dolorido. Raramente os sonhos são prazerosos.
(Pode ser que os meus sonhos à noite, já há muitos anos, não sejam muito bons, ou péssimos. Talvez eu não seja um exemplo situado na média dos sonhos mais comuns.)
De onde saiu essa ideia de associar sonhos com desejos - de consumo, de relacionamentos ou qualquer outra coisa que se queira ardentemente… estou pra ver.
O que torna um sonho uma #palavragasta é o uso abusivo e abusado de “sonho” não só para desejos ardentes, relativos a coisas difíceis, mas para QUALQUER desejo. Qualquer um, mesmo. Vejam só: o desejo de comer uma comida rara pode ser chamado de sonho? Como, por exemplo, comer o caviar de um esturjão muito raro, encontrado somente em “tal” lago do Uzbesquistão, ou comer linguiça de carne de capivara (um desejo meu, confesso)?
Mas “sonhos” são empregados até para caprichos muito chinfrins, muito safados – no bom sentido da palavra. Lembro-me do Gugu Liberato, apresentador de TV, há quinhentos anos atrás, ter cedido aos caprichos mais idiotas no quadro do programa“Viva a Noite”, que justamente levava o nome de “Sonho Maluco”. Ali, qualquer sonho era maluco: para quem era catador de papelão ou vendedora de chicletes no semáforo, ter uma casa de dois quartos era um sonho maluco. Comer uma refeição completa em um restaurante chique era um sonho maluco. Arranjar um namorado era um sonho maluco.
O negócio desandou (lembro-me como se fosse hoje) quando as fãs de Gugu começaram a pedir que se realizassem supostos “sonhos” envolvendo risco de vida do próprio apresentador. A brincadeira acabou quando ele passou em um corredor de fogo dentro de um carro de corridas. Gugu saiu um pouco chamuscado mas muito mais assustado. Anunciou ali mesmo o fim da atração.
“Nunca mais”, diria o corvo de Poe. Na falta de um corvo, veio o Ivo Hollanda e fechou a Porta da Esperança na cara das fãs, que queriam que Gugu vivesse um pesadelo para elas realizarem um sonho.
Como diz a piada, John Lennon chamou o George, porque o parceirão não estava, foi Paul McCartney no correio:
“O Sonho acabou. Vamos comer quindim?”



