Só quem é pobre pode falar de “coisas de pobre”. Não que seja proibido. Mas com conhecimento de causa e verdade, só quem está na condição para falar daquilo que conhece.
Para começar, se está fazendo vídeo sobre o assunto, é porque não é mais pobre, não é verdade? Pobre de verdade não tem nem celular bom para fazer vídeo. Hum.
Então. Vivi na década de 1980, criança, e não tive dessas frescuraiadas que ficam falando nesses vídeos. Parece que a vida “pobre” dessas pessoas foi num bairro chique de São Paulo. Aqui não, aqui é pobre raiz, “pé vermeio”, direto da Caipirolândia.
Ficam falando das festas de aniversário com bolo feito na padaria. Eita, na minha época era a própria mãe, no máximo a tia ou a avó, que fazia bolo em casa. Não encomendava não, que era caro pra chuchu. E chuchu sim, era barato, até dava na cerca (neste caso, era de graça).
Mais ou menos assim. Com chapeuzinho de papelão, guaraná caçulinha, coca-cola e guaraná com garrafas de vidro, com bolo feito em casa e bexigas na parede. Faltaram nestas fotos as balas de côco.
Falando em cerca, outra coisa que dava na cerca era bucha. Para quem não conhece, a bucha é um legume (isso mesmo, um legume). Quando colhido verde, dá para comer o miolo, depois de refogado, é da mesma família do pepino. Colhido maduro e secando bem, é uma esponja. Era com a bucha que a gente tomava banho. Tanto que a minha família, até pouco tempo, chamava a esponja de supermercado de “bucha”.
Bucha madura, a tal da “esponja vegetal”, e o fruto ainda verde, no pé.
Sobre frutas, não é que a gente comia mais frutas porque eram mais baratas. Nisso o Maurício de Souza acertou: como o Chico Bento faz nos gibis, nós, crianças, roubávamos goiaba e manga, as frutas que mais davam nas beiras de muro e quintais dos vizinhos. Árvores carregadinhas de manga espada, manga coquinho (essa é bem doce, uma delícia), assim como de goiabas brancas e amarelas. Fora a cana-de-açúcar, que meu pai ia buscar, com a filharada no banco de trás da Variant 70, nos canaviais das usinas. Estava na beira da estrada, e umas poucas (umas vinte) canas faziam a alegria dos pequenos.
Lembro também de ganharmos sacos de milhos de parentes que moravam em sítios, e dá-lhe curau, sempre preferida no lugar das pamonhas. Cuscuz, só de sardinha; por incrível que pareça, o cuscuz com frango desfiado virou “moda’ mesmo por aqui só no fim da década de 1990; cuscuz com sardinha de lata ou peixe de rio sempre foi comida de pobre.
Pobre de verdade comia merenda na escola, não levava lanche. De vez em quando, filava o lanche dos colegas que levavam guloseimas nas lancheironas bonitas. Nas quais a gente ficava babando em cima, com personagens estampados tipo Mickey, Spectroman ou Scooby-Doo.
Pobre de verdade abria garrafa de tubaína ou cerveja na borda da mesa.
Guardar feijão em pote de sorvete foi costume só depois dos anos 2000; ninguém congelava comida, pelo que me lembro. A parte de cima da geladeira só servia mesmo pra fazer gelo de forminha.
Pobre de verdade usava a roupa até ficar apertada, e as passava para os irmãos mais novos. Sapato também, principalmente o keds (meu pai chamava o tênis assim, uma marca da década de 70), a conga ou o kichute. Comprado a suaves prestações em 12 ou mais vezes na Sapataria Santana ou na loja do Cella. E não tinha relógio de trocar pulseira não, isso era para quem era rico, ou seja, de classe média. A gente ficava babando no um relógio, pois sempre tinha um riquinho em cada sala da escola.
Então “Keds” é uma marca. Interessante, agora descobri. Google abençoado.
Pessoalzinho na festa de São João, em Tupi, há muitos anos. Como diria Roberto, “é uma brasa, mora”.
Criança pobre de verdade não martelava prego no chinelo havaiana, porque nem chinelo tinha, andava descalço, e formava um cascão embaixo do pé, bem grossão. Digno de passar por cima das brasas de uma fogueira de São João sem queimar o pé vermeio, ou preto.






