A lenda das Três Porquinhas
Um grupo empresarial de sucesso, as Três Irmãs. Exatamente do que você está pensando
Outrora o glorioso Bar da Galega, parte do grupo Três Irmãs; o imóvel está em reforma, pode ser que seja o próximo Oxxo
Era uma vez três irmãs no meu bairro. Descendentes de portugueses do norte, espanhois e italianos, tinham se saído três ratinhas brancas.
Desde pequenas, eram conhecidas assim: a Loira, a Galega e a Alemoa. O pai tinha as apelidado assim, e os nomes pegaram por todo o bairro, na escola, por onde tenham passado.
(Foi a contribuição do pai nessa história que, vereis, faz-nos clamar aos céus por resposta, com os braços estendidos para cima, à pergunta candente: “mas onde está o pai dessas meninas???”)
Ab ovo, a única coisa que as distinguia de todas as outras meninas era isso: eram loiras num lugar que os tons de pele eram de café, café com leite, chocolate, cappucino, ébano. E os cabelos, da cor da asa da graúna.
Não puderam evitar, na adolescência caíram no meio daquela música, “Loirinha Bombril”, e ali ficaram um tempo.
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Quando mencionei a branquitude como única distinção entre as Três Irmãs e as outras meninas, não disse toda a verdade.
O que distinguiu ainda mais as Três Irmãs, a partir dos treze anos, era sua safadeza.
(Babando, velhos machos? Linha à pipa, cambada.)
Safadeza em que sentido, amigo narrador? Talvez não seja safadeza a palavra. Esperteza será termo melhor. “Esperteza” no pior sentido. O sexo era somente uma das suas ferramentas. A beleza incomum, por conta da loirice fora de contexto, mais uma conversa envolvente, tanto para as senhoras mais velhas quanto para outros adultos, era o suficiente para chantagens emocionais épicas. Elas comoviam os vizinhos, amigos ou conhecidos, que emprestavam dinheiro para que cada uma delas desenvolvesse negócios “por conta”.
Que maravilha, mocinhas dessa idade já querendo se virar por conta própria, em vez de ir atrás de safadezas com os homens, exclamavam as mulheres da igreja – Assembleia de Deus, Congregação, Deus é Amor ou “Emanuel Deus Conosco”.
Vejam só as ideias: fazer esfirras, coxinhas, enrolados, para vender nas portas das empresas, não haveria mesmo de dar certo? Os funcionários compram sim, dona Zita, e se fizer gostoso eles sempre vão comprar, dizia a Loira. Empadas ou enrolados, dona Zita, que acreditou no plano de negócios da Loira, nunca viu, nem nunca mais os duzentos reais, que eram pra comprar farinha, fermento e recheio.
A dona Biluca, que tocou cento e cinquenta na mão da Galega pra fazer brigadeiro (“tem uma menina na escola que vende muito”, disse a menina), tomou um chocolate; e a Tchuca, que acreditou de verdade que a Alemoa ia usar os trezentos e cinquenta pra pagar o curso de manicure e pedicure, baratinho na internet, tomou um pé.
Com o tempo, muito tempo, que tinham de nada fazer, vagando pelo bairro em horários diferenciados, conversando com todo mundo nas portas e portões, enquanto senhoras varriam a calçada, os tiozinhos e tiozinhas caminhavam pra dizer que faziam exercício, os porteiros porteiravam e os traficantes traficavam, foram sabendo de tudo. Tornaram-se tudo para todos. Além de fazer muitos bicos como entregar sacolas, sacolinhas ou mochilas com coisas sabe-se lá o que fosse, para pessoas dentro e fora do bairro, e nisso ganhassem alguma coisinha, souberam das mumunhas e esquemas de quase tudo.
Saber, por exemplo que aquela crentinha que morava do outro lado da esquina da mercearia do Tobias, a Luciana, com dois filhos pequenos que iam pra creche o dia inteiro, não os deixava lá pra trabalhar, pelo menos não numa firma. Digamos que ela fizesse home office, um emprego que rendia, nada ilegal, mas quem não ia gostar de saber, nem um pouco, era o Fernando, o marido, que congregava na igreja do pastor Fabrício. E nada de dizer “a” para o pastor, pois a igreja não lhe tomava tanto tempo assim, pois sempre sobrava um pouco para dar uma passadinha na mercearia do Tobias e depois atravessar a rua.
Um tanto por mês, e a Galega não abria a boca pra ninguém, nem pros vizinhos, muito menos pro Fernando. “Não sou sua amiga? Não levo os seus filhos pra creche, compro as coisas no mercadinho, até minto pra cobrador e oficial de justiça?”
A Galega abriu o carnê “chantagem de vizinhos”, e dali sacou sua primeira mensalidade – seu primeiro ganho em prestação de serviços.
Juntando com a putaria, serviço que começaram a prestar (valeu a pena esperar? Guenta a mão, babão, sua hora vai chegar), embora impróprio de juris para sua idade, de facto eram aptas, prontas e refesteladas para desempenhá-lo, embora prudentes e muito, muito cautelosas, servindo bem para servir sempre, discretamente, aos vizinhos de meia-idade, que pagavam outro tipo de carnê.
Assim, elas se tornaram mestras naquilo que um certo Francisco descrevera como a arte de “fazer tudo sempre igual”... mas o que cada uma fazia, diferia nos detalhes. Uns trabalhavam honestamente, com empregos há vinte, trinta anos na mesma firma, mas faziam putaria escondida; outros que faziam bicos e se viravam como podiam, catando latinhas e metal, vidro e plástico, papelão já não dava tanto, e gostava tanto de uma birita forte, como de jogar caixeta a dinheiro, fumar uns “charos” e crack, alguns até conseguiam cocaína. Tinha quem abria igreja evangélica e fazia dívida na boca de fumo; quem tacava a mão no caixa da pastoral da paróquia, posando de beato, beata; e os traficantes e seus satélites, que rodavam em torno de pick-ups e carrões, estes não tinham problema, a não ser de vez em quando com a polícia, que resolvia mostrar algum serviço e levava algum deles para passar um tempinho preso… para depois retornarem, assumindo de novo o trono e o reino.
Como disse, a cautela era a alma do negócio, aliada a uma capacidade artística dramática em fingirem estar gostando de tudo que faziam com aqueles senhores barrigudos e nem sempre tão velhos. Não era como as antigas profissionais, que tinham paciência de ouvir as lamúrias dos machos beta (tipo peixes beta, aqueles de aquário), que vinham ali despejar inferioridades ou o sêmen encruado; e sim, tinham o dom de sorrir e de se movimentarem da maneira que aquela geração de homens, devidamente acostumada com pornografia de uma época mais robotizada e passiva, gostava mesmo que a novinha fizesse tudo, e ele, ali, somente recebesse, embora elas dessem tudo, ou quase tudo, de si.
Gostem ou não desse relato muito didático, tenho o dever de informar que as Três Irmãs, com o tempo, tornaram-se conhecidas, à boca pequena, entre sussurros e cochichos, além de conversas muito privadas no zap zap, como as Três Porquinhas.
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Não me perguntem se há ligação entre a loirice das três e a alcunha de “porquinhas”.
Já disse, não perguntem!
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Tá, tá, vou contar do que ouvi dizer: disse o Xatupi do bar do Zezo que no Estrangeiro, nas safadagens lá deles, um termo que liga a expressão “rabo de porco” a determinada prática sexual. Para bom entendedor, essas palavras bastam. Nada a ver com o fato dos cabelos – quaisquer deles – serem da cor dourada, ou amarela, ou até de um ruivo alaranjado, natural, embora não parecesse, como era o caso da Alemoa.
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Era fatal, um ponto de virada trágico (inevitável?), que elas fossem convocadas pelo tráfico do bairro, instâncias inferiores mas já poderosas. Quem sabe, escalassem um dia hierarquias mais altas. Foi ficando perigoso: de caçadoras, começaram a ser observadas com mira telescópica pelos traficantes da Pracinha do Mal, e se tornaram cobiçados troféus dos capos da contravenção.
Muito cuidadosas, pisaram em ovos (não os que estão pensando, pois estavam sendo cautelosas, pombas). Que o feitiço do achaque não virasse contra elas. Viram-se em terreno inexplorado e pouco firme, viram-se em iminente quebra de confiança com seus clientes, muitos.
Imagine quantos homens, aposentados ou desocupados crônicos, e até algumas mulheres, matam o tempo sem fazer nada em frente à televisão, no celular, em casa. Portanto, imaginem que a faixa de mercado que atendiam era outra, de outro caráter. Digamos que tinha gosto de tupperware com feijão, tempero de alho moído com cebola e cheiro verde em vidro de molho de tomate, aliás, água de talha de cerâmica tomada em ex-copo de requeijão. Nenhum sabor ou cheiro de óculos Chilli Beans, Pajeros e correntes de hip hop. Era um sexo gostoso para passar o tempo, com sabor de paçoquinhas Amor. Que preenchia, depois de meia hora de atividade, o dia, a semana inteira do beneficiado. Que abria segredos e carnês de chantagens de bairro, nada que prejudicasse muito as contas do mês de ninguém, e ainda ajudava as moças.
Nada se ligava a fantasias ou fugas com rés e réus menores, ilusões de ostentação, alucinações épicas e manias de grandeza, movidas a viagens lôquera com pó, crack ou outra substância com efeitos bem para lá do corote Pedra 90.
(Onde, meu Deus, estava a mãe dessas meninas?)
Cuidadosas, colocaram só a pontinha do pé naquela água, para avaliar até onde podiam ir. Vistas na Pracinha do Mal, passaram de falantes a faladas. Nada gostaram dessa nova fama. Fumaram, puxaram um beck e umas pedras de crack, mas sabe-se lá de onde tiraram tanta consciência, não se deixaram seduzir por droga nenhuma, assim como não tinham caído no álcool nem no cigarro. Prestaram seus serviços para o chefão daquelas ruas, representante de um poder maior, fornecedor de toda a área metropolitana. Agradaram, mas deram um jeito de se esquivar, sem cometer a temeridade de aparentarem estar coletando informação que pudesse ser usada contra aqueles poderes.
Por milagre, escaparam, passando no meio deles.
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Sabiam que suas vidas estavam traçadas para correr em outros campos. Tráfico, crimes comuns e o que chamavam de “amorzinho pros tiozinhos” podiam até estar relacionados (além de chantagem, suborno e achaques, encontrados ali na pasta “crimes comuns”), mas em suas cabecinhas de cabelos claros, era outro o universo para o qual estavam destinadas…
A estrela sobre suas testas, cada facho de luz fazendo brilhar estolas purpurinadas e saltos altos cor de rosa.
As três sabiam, o palco era o seu lugar.
Exatamente para fazer o que – cantar, dançar, fazer o strip tease, contar piadas -, não tinham tanta clareza. Talvez um pouco de cada coisa. Desde que brilhassem, e muito.
Entendam, o brilho em suas mentes e corações seria literal – faiscando como aqueles fogos que giram nas mãos das crianças, nas festas juninas. Como fogos de artifício em noite de Ano Novo. Como bombas em seus pavios loucamente firulentos, que estivessem prestes a explodir, espalhando pedaços.
Pedaços delas mesmas, “As Loiras”, por todo o mundo. E ninguém poderia escapar.
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Destino comum, de novela da Globo ou de roteiro da Embrafilme, inspirado em “A Hora da Estrela”? Melhor ser comum do que comunista, embora muitos de vocês não haverão de concordar, clamar por uma história de consciências despertas, de luta de classes.
Aqui não, violão. Sai pra lá João Gilberto, sai pra lá Caetano de Facebook.
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As Loiras rodaram. Sua fama de Três Porquinhas foi se desvanecendo, como uma pluma velha, de um adereço gasto. Que vai perdendo cada pedaço, e no fim, é só um cabo de um material duro, quebradiço, amarelo-marrom, único vestígio de um avestruz que já nem existe mais.
Chegaram a brilhar? Mentiria se dissesse que elas fizeram carreira maravilhosa, embora cheia de percalços. A única garantia na vida de um bom personagem são esses percalços, perrengues que o fazem justamente uma boa distração para quem lê suas aventuras. Eles sofrem e nós nos entretemos. Os deuses escrevem suas peças, para nos atormentar e divertirem a si mesmos, mas o texto acaba resultando em uma história sem sentido, gritada contra o vento. Acabamos por descobrir que o autor ganhou o prêmio Jabuti, mas isso não faz diferença nenhuma. Eis a tragédia.
Garantida, mesmo, é a vida com problemas; e as maravilhas, e consolos, são bônus, ou talvez distrações do autor, que nem mesmo ele aguenta tanta desgraça. Loira, Galega e Alemoa acabaram por tomar, cada uma, seu caminho, por entenderem que o bairro já era pequeno para suas metas, e sem espaço para abrigar suas visões de plumas, paetês e tanto glitter.
Vou cortar vinte e tantos anos de suas vidas adultas, e quero pedir palmas para elas, pois conseguiram manter-se vivas por tanto tempo; a tal da esperteza que mencionei no começo era um danado de um instinto de sobrevivência que levou-as ao troféu dos quarenta anos de idade. É justo dizer que a Alemoa manteve sua beleza peculiar e se tornou-se uma bela mulher de meia-idade como poucas; Galega e Loira não tiveram tanta sorte. Importava que as três estavam firmes e fortes, e trabalhando, cada uma com sua casa própria, e sonhando até em voar em céus nunca antes sobrevoados.
Talvez um contrassenso, a Alemoa, a mais bela das ex-Três Porquinhas, era a única que tivera um filho, uma distração, mas uma presença que tinha mudado tudo.
Teve consciência plena no momento de fazer o café. Não tinha tanto sono como quando era jovem, depois que o Lucas nasceu, e acordava de madrugada. Antes do sol nascer, levantava e fazia o café, preto e doce. Gostava não de ver o astro-rei surgindo no céu, pois na casa em que morava, não dava para vê-lo estrear no horizonte, estava cercada de morros com outras casas por todo o lado. Gostava de ver o clareamento indireto do céu, ele se espalhando devagarzinho num degradê de luz, subindo de baixo pra cima do azul da noite para uma cor de areia que se misturava com o azul, que ficava mais claro, mais claro, até chegar no azul celeste, sem se perceber, pois ela “viajava” naquela mudança como o controle de volume do rádio, que girava devagar mas de repente estava com o som alto.
E neste dia, ela juntou o clarear do dia com os pensamentos sobre seu filho, que dormia em seu quarto, que era só seu, com os brinquedos, cama e guarda-roupa decorados com os desenhos prediletos da televisão. Tudo comprado à vista. Com gratidão e alívio, a Alemoa, que um dia fora a Alemãzinha do papai, se orgulhava de ter oferecido tudo o que o filho desejava.
Via como tinha percorrido na vida sem quase nenhum sofrimento nem sobressaltos, embora fizesse tudo com esforço e tivesse feito tudo certo, dentro do que conseguia entender como sua moral: “eu contra o mundo, ninguém me quer ver bem, e faço o que for preciso para sobreviver (“sobreviver” entendido como “fazer o que eu quero”); se o mundo ajudar, ótimo, se não, toca pra próxima”.
Mas via agora: será que ela tinha conseguido o que queria, lá atrás? Será que o seu sonho de ser uma estrela tinha se realizado, de alguma forma?
O Lucas era a razão da sua vida, pensou. Eu só faço o que faço hoje por causa dele. Quando engravidei dele, eu não tinha o que fazer, nem para onde ir, embora tivesse tudo o que queria, no momento. E esse era o problema: só queria qualquer coisa na hora, no momento, e nada para depois. Não sabia o que queria pra depois de amanhã, pois estava satisfeita – e muito – hoje.
Por um brevíssimo instante imaginou-se sem o Lucas, sem a gravidez, que nem sabia quem tinha gerado, um fato da vida que não lhe interessou. Imaginou-se sem os perrengues próprios do bebezinho, da amamentação, das cólicas e do trabalho que ele lhe deu, trabalho do qual, por alguma graça recebida de um Deus em que não acreditava, nunca tinha reclamado.
Imaginou-se na Casa da Ágata, onde as meninas davam tudo de si – o corpo, o coração, tempo, suor e lágrimas, para não falar do sangue de várias, e a alma. Esvaziada, uma boneca oca que falava, e falava aquilo que os homens queriam ouvir, e fazia o que o homem quer.
E que ali, não era a Alemoa, mas quem eles quisessem que fosse – a Stefany, a Virginia, a Brenda, a Vivian ou a Emily. E que nada se importavam se ela os servisse, e no outro dia, soubessem que estava morta. Pois não saberiam, jamais, se acontecesse. Como aconteceu como uma das meninas, que nem amiga era, pois não havia tempo de ninguém ser amiga de ninguém – alta produtividade, entendem? Num dia, ela era uma das opções – a japonesa, a ruiva, a mulata, a índia – e no dia seguinte, o catálogo faltava uma opção. “Logo teremos outra japonesa, a Kiomi foi para outro lugar, infelizmente”.
Se ela, Alemoa, continuasse ali, seria o que, mais pra frente? Uma puta de luxo? A dona de uma casa só dela? Sabia que naquela toada, jamais seria a star que tinha sonhado, naquela adolescência tão distante. Estaria morta, assim como a Kiomi, teria tomado veneno de rato pra se matar, por não saber o que fazer. Por não ter a mínima ideia do que poderia fazer, além de entregar seu corpo por dinheiro, todos os dias e noites de sua vida, para dali em diante.
Então, a gravidez tinha lhe dado um propósito, um objetivo, uma outra vida: criar o Lucas, para ser um homem honrado, honesto e digno.
O sol tinha nascido completamente, mais de um raio de luz entrou pela janela.
O Lucas tinha salvado sua vida.
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Longe de ter derrubado duas casas, uma de palha e outra de barro, e outra ainda de tijolos, o pequeno Lucas fortaleceu as ex-Três Porquinhas a ponto não de fazê-las mudarem de vida, mas de foco, dentro do mesmo ramo, mas um pouco mais legalizado, migrando da vita alla puttanesca para os “shows artísticos para maiores”.
Não queriam dar um mau exemplo para o filho e sobrinho, em suas consciências bateu o dever de serem um pouco mais respeitáveis. Não queriam que o xingamento mais comum do Brasil, aquele que se referia aos filhos de profissionais do sexo, fosse irrefutável, por ser completamente verdadeiro.
Foi aí então que floresceram o Bar da Loira, a Boate Galega’s e o Germany. Referências quando se tratava de bar de strip teases, que com o tempo incorporou também os shows de transformismo e travestis mais talentosos, no melhor estilo “não fuja da Raia”.
Durante longa época, foram os três estabelecimentos os melhores pontos para a homarada espairecer, e até as profissionais podiam fazer ponto por lá, desde que não atrapalhassem, em cada casa, a sua razão de ser, que era a Arte.
O mundo sorria para as três irmãs, e para o Lucas, que nem sabia o que sua mãe e tias faziam para viver, só sabiam que elas tinham um restaurante, um bar e uma casa de espetáculos. Quando lhe perguntavam “qual casa?”, ele respondia “não sei”, pois era verdade que não soubesse. Pois sua mãe entendia que ele não precisava da informação, bastava saber que ela, e as tias, eram empresárias.
Aquele mundo sorria, o mundo delimitado pelas entradas das rodovias com o nome da cidade em letras de cimento, acompanhado de uma engrenagem do Rotary Club, tinha como limites a estrada que dá saída para Rio das Pedras, onde tem a venda do Nenão e o mais novo puteiro das quengas do Nordeste, uma novidade recente; o Rancho da Linguiça na estrada pra Tupi, perto do puteirinho da Dona Vivinha (engraçado, porque ela já estava mortinha há uns dez anos); o caminho pra Charqueada, onde tinha o Forró da Cabocra, o Bailão do Zezo e o Sítio da Mina d’Água (nada familiar); a saída para Rio Claro, com o Café do Zampola, zona de luxo; a estradinha que dá pra Conchas, com o Rancho do Dotô, direção de dona Lucinda; na estrada para São Pedro e Águas, onde, com luminoso e tudo, anunciava-se o Termas mas também, logo à frente, o Bailão do Dedé Bala, buraco quente; e o caminho pro Anhembi, onde era tradicional o “Nelão Rei” (não me pergunte rei de quê ou quem).
Acima de todos, reinando absolutas no céu azul glitterado da Arte para Adultos, as Três Irmãs.
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Lucas cresceu em estatura e graça, formou-se em Direito, e hoje é um advogado muito bem-sucedido, casado, com dois filhos, membro respeitado da diretoria da OAB local. Dizem que vai fazer concurso pra juiz.



