"Tsundoku", ou em caipirês, “comprei livro pra mais de metro porque... porque eu quis.”
Uma resenha torta sobre alguns livros prediletos, e outros na pilha de urgentes
“Pilha de urgentes” (o Almeida Júnior é mais para ilustrar o amor pelos livros com uma imagem de um dos meus pintores prediletos). São livros sobre os quais quero escrever. Alguns são releituras da meia-idade. Sim, terei releituras também na velhice, como todo bom leitor, mas ainda não é tempo.
O vício de comprar livros por compulsão é chamado em japonês de tsundoku, que significa “comprar materiais de leitura e acumulá-los numa pilha”. Não é exatamente o meu drama, minha compulsão talvez seja mais a de fazer listas, comprar alguns destes títulos, emprestar outros de bibliotecas e atrasar absurdamente para devolver os volumes, comprar e-books que agora estão perdidos em alguma pasta do celular ou do computador.
Graças a Deus não tenho mais nenhum livro de amigo, já fiquei com alguns por mais de dez, quinze anos. Como os meus que emprestei e não recebi de volta são como pedaços do meu espírito que foram destacados de mim como um ticket-refeição (do tempo em que eram destacados de um carnezinho, alguém aí se lembra?), não farei mais a mesma sacanagem com amigos ou conhecidos.
O termo em português “bibliomania” também não descreve minha compulsão. Seria “bibliofilia” a palavra certa?
Leio com muito prazer os livros de Alberto Manguel, que um dia foi secretário pessoal de Jorge Luís Borges. Seu tema são os livros e tudo o que está ao redor deles de maneira mais imediata. Ou seja, todo o universo, mas filtrado com a peneira da cultura livresca. Como o fez Borges; a “Biblioteca de Babel” e “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” são metáforas poderosas dessa visão; pode-se dizer que Manguel, por mais que queira, está aprisionado nela. Mas disso não irá reclamar.
Seu autor preferido é Robert Louis Stevenson, e a “Ilha do Tesouro” é uma metáfora para o tesouro da literatura, que percebi muitos anos depois da leitura do primeiro livro que devorei dele, “Uma História da Leitura”. Depois, vi com prazer que tinha escrito “Lendo Imagens”, que junta duas paixões minhas, a arte visual e a literatura.
Em “A Biblioteca, à noite”, ele desperta a cobiça especial dos acumuladores de livros e fala como construiu sua casa, pensando mais nos livros do que em receber pessoas ou para outras atividades suas, como dormir e comer.
“O Leitor como Metáfora” é outra preciosidade, é uma coleção de relógios suiços artesanais ou lentes holandesas moldados em palavras.
Manguel não faz listas de livros. Penso que ele escreve seus livros só para me dar motivo para eu fazer mais pilhas por aqui.
Estas sim são a minha compulsão. O termo japonês descreve parcialmente a mania particular deste acumulador. Não é comprar livros, novos ou usados, nem emprestá-los de bibliotecas, nem mesmo encher HDs com pdfs (ainda não tenho um kindle), embora faça tudo isto.
Nomeei minha mania de “drama”, logo acima, mas “drama” mesmo é chamar isto de drama. Talvez um dramalhão bobo, para botar banca ou marcar território, como um cachorro sarnento nos postes do bairro. Posar de erudito, como se acumular livros fosse sinal de atividade intelectual ou relevância. Como dizia João Chiarini, advogado e folclorista de Piracicaba, “tenho quarenta mil livros e li todos”.
Conforta algumas pessoas estarem rodeadas de vasos de plantas. Algumas têm a sorte de ter espaço para um jardim, ou uma chácara, sitiozinho, onde cultivem flores, folhagens e ervas medicinais, temperos, folhas para chá. A mim, conforta estar rodeado de livros, mesmo com as lombadas ferradas, capas de papel cartonado vagabundo da década de 60 ou 70, livros com orelhas e assim por diante.
Sentar-me à minha cadeira do atelier / escritório, com a paisagem de estantes de ferro de escritório lotadas de volumes, antigos e novos, me conforta e me coloca um lugar no mundo que conquistei só recentemente. Como canteiros de flores, estufas com exemplares vegetais exóticos ou delicados, cercas vivas e caramanchões, passeio meu olhar e dou um alô a muitos amigos: Camões, Cervantes, Anthony Burgess, Suassuna, Jane Austen, Gombrich, uma multidão de amigos.
Melhor dizendo, como disse Harold Bloom, ler é como ter amigos, mas participando de conversas muito mais interessantes.
Minha conversa se dá ora pela conversa de suas páginas, ora pelas lombadas silenciosas, mas eloquentes, que contemplo. Como se pudesse emprestar os talentos dos clássicos por osmose, passo os olhos pelas estantes, enquanto digito estas maltraçadas linhas e entrelinhas, pelas pilhas e pilhas de uma biblioteca de babel desordenada, anárquica, que segue pelo meu escritório até a cômoda do meu quarto, as estantes de livros das crianças, os criados mudos.
Quando não há mais espaço, os livros seguem aboletados em mim no comboio de corda, aquele que se chama coração. Contudo, ali não se contém e se derramam, saem pelas minhas orelhas, olhos e boca, e de vez em quando transbordam aqui.




