Veja só, homem de meia-idade. Você passa todos os dias, no mesmo horário, em frente da minha casa.
Mochilinha nas costas, óculos grossos, calça jeans com cinto (mesmo assim, caindo), camisa social bem gasta, com uma jaqueta de moleton.
Barba por fazer, às vezes com boné, às vezes sem, mostrando os cabelos ralos por cima e uma basta cabeleira grisalha dos lados.
Você não me nota. E eu te agradeço por isso.
Eu não agradeço a Deus por alguma benção.
Eu cuido da minha esposa doente, que se acidentou quando tínhamos dois anos de casamento, e minha vida tem sido acordar para cuidar dela, ir trabalhar, cuidar dela na volta e tratar com as cuidadoras.
Faz quarenta anos.
Aos fins de semana, assisto ao futebol ou qualquer besteira na TV. Não me dou conta do celular, nada que me oferecem nestas maquininhas me interessa. Tá, de vez em quando uma olhada, mas tudo ali me aborrece.
Saco vazio, mas paro de pé. Cambaleando, vou, me aprumo. Olhe: não bebo.
Ao contrário de você, que se autocongratula pelo próprio aniversário no Facebook, eu não tenho trajetória.
Ou melhor.
Minha trajetória é uma bala de canhão, disparada de um morro, caindo pesada no meio da baía, imensa e brilhante de sol. Formasse um buraco permanente na água, e ainda assim a bala passaria despercebida. Sem afundar nenhuma nau, sem defender nada. Caindo ao chão das funduras do braço secundário de mar que vigiei, vida passada em chumbo e pólvora.
Uma bala de canhão, pesada, quebrando o ar, sem propósito nem função.
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