Tião Carreiro não é “limpinho”
E o que pode, e o que não pode, na MPB

Vamos dizer que este texto continua a prosa do artigo “Tião Carreiro, um gênio da música brasileira”, publicado aqui no Viletim, que pode ser lido cicando aqui.
Antes de continuar falando de Tião Carreiro, tenho que contextualizar. Mania de historiador. Para quem não é da Caipirolândia, faz-se necessário explicar em qual copo se bebe esta pinga.
Algo do que se ouve nos botecos, pés-sujos, vendas, bolichos...
A “cultura de boteco” (que no Rio de Janeiro, chamado de “pé-sujo”, e nos países hispânicos, “bolicho”) compreende bares e as chamadas “vendas” de beira de estrada ou bairros rurais (em extinção). É cultura masculina, vamos dizer que 98% que frequenta esses locais são homens (mulheres que transitam em locais como essses são chamadas de nomes um tanto feios pelas esposas dos fregueses) - mulatos, pretos e brancos dos botecos da Caipirolândia – um território que compreende o interior dos estados de São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso (os dois), Paraná, e segundo algumas notícias, botecos de algumas capitais.
Em muitas vezes, os botecos possuem canchas de “bocce” ou bocha, nos locais com influência de imigrantes italianos (como Piracicaba e região, onde moro). Alguns destes botecos apoiam, orgulhosamente, times de futebol de várzea. Muitos de nós de Piracicaba conhecemos um deles que patrocina um time há mais de 70 anos, o EC Vera Cruz, fundado em 1950 (clique aqui para acessar).
Esqueci alguma coisa?
Ah, sim: nestes lugares, é costume haver cantorias ao vivo, com pessoas que tocam violão, e cada vez menos frequentes, violas. Em alguns botecos, há um “violão da casa”. Normalmente, quem canta é o violonista ou violeiro, acompanhado de um parceiro. Eles cantam em intervalos de terça – as conhecidas “primeira” voz e “segunda” voz. “Vai de segunda?” é pergunta corriqueira. “É muita baixa pra mim”, pode ser uma resposta. O parceiro pode se alternar com outras pessoas várias vezes durante a cantoria. A troca é feita com pessoas do público, que se juntam em volta dos cantores.
Como a pinga, bebida barata, sempre foi mais acessível às pessoas pobres, do que a cerveja, bebida cara, a cultura de boteco é associada aos “pinguços”. Brigas nestes lugares não são raras. Mas os botecos com melhor fama, onde poucas brigas, ou nenhuma, acontecem, são os preferidos de quem cultiva as cantorias.
Os mais “abonados” que possuem ranchos, de preferência à beira de algum rio ou ribeirão mais caudaloso, levam os colegas (que nunca eram chamados de “amigos” até passado recente; “amigo” era sinônimo de “amante”, “namorado” ou amasiado, no interior paulista) e a cultura de boteco para lá, em fins de semana de churrasco, pescaria, pingaiada e cantorias.
O violeiro que sabe o repertório de Tião Carreiro é príncipe nestes lugares.
Tião Carreiro é o rei.
Música caipira não é música sertaneja
Tião Carreiro, como dito no primeiro artigo sobre o músico, é um gênio da música brasileira. Mas não é reconhecido assim. Ele está à mesma altura de João Gilberto, Tom Jobim, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso. Penso até mesmo que ultrapassa alguns destes, em sofisticação poética e musical.
Penso como música e tradições nordestinas são valorizadas, nas rodinhas da Vila Madalena e congêneres, além das festinhas universitárias “do povo de humanas”. Nada contra a cultura nordestina, muito pelo contrário. É uma cultura rica, diversificada, e merece ser estudada, praticada, lembrada e desfrutada.
Assim como penso que cada um gosta do que quer, quando quer, da maneira que quiser.
Mas, porém, todavia, contudo, entretanto, no entanto…
…quisera essa boa vontade de universitários e “pessoas com cultura”, geralmente de classe média, se estendesse para tudo o que fosse brasileiro. E não só para aquilo que é promovido por contemplados nos editais de leis de incentivo, especialmente federais.
Sou professor de história da arte e falo com frequência de cultura brasileira em aulas e palestras. Presenciei mais de uma vez pessoas de meia idade e jovens universitários, que “super curtem cultura”, torcendo o nariz à menção de Tião Carreiro, Cornélio Pires, Pedro Bento e Zé da Estrada etc.
As mesmas pessoas que dizem adorar samba de coco, tambor de crioula, Mestre Salustiano etc., repelem artistas paulistas da chamada “música caipira”, “raiz”.
E são paulistas!
Talvez porque essas pessoas, em esmagadora maioria de classe média para cima, associam a cultura tradicional paulista às camadas mais baixas da população. Quem sabe por terem saído delas recentemente, na história familiar, ou talvez até mesmo pessoalmente. Associam a cultura popular da música caipira, muito presente na “cultura de boteco” até hoje, assim como “música de festa junina de igreja”, à pobreza e ignorância.
Mas não é assim também com a cultura nordestinas? Ou será que a raiz da música nordestina é toda erudita, vinda das classes sociais mais ricas?
Penso também que paulistas que torcem o narizinho associam a música raiz, tradicional, ao novo sertanejo, que reclama uma associação distante, longínqua, com as modas de Tonico e Tinoco, Pedro Bento e Zé da Estrada, Craveiro e Cravinho, Tião Carreiro, pagode sertanejo etc. Os sertanejos de hoje, cujas letras só falam de “dor de corno”, “talaricos” e sexo, de caipira não têm nada, a não ser quando cantam em dupla e cantam em intervalos de terça (primeira e segunda voz).
A verdadeira música sertaneja, que eu e cada vez mais gente, prefere chamar de caipira, raiz, tradicional, mais próxima das origens populares, não é, nem de longe, a de Maiara e Maraísa, Ana Castela, Henrique e Juliano, Gustavo Lima. Nem mesmo as de Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, Zezé di Camargo e Luciano. Que fizeram um imenso desserviço à cultura brasileira, fundindo o sertanejo à música pop, gerando um monstrengo.
Se pensarmos na associação da música dita caipira com toda essa turma, além da relação com pobreza e ignorância, é compreensível as pessoas não gostarem dela. Embora uma coisa não tenha a ver com a outra. Ou como dizemos em Piracicaba: “o c* num tem a vê com a carça”. Embora estejam próximos um do outro.
E por que gostar da música da gente pobre do nordeste e não gostar da música da gente pobre de São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Paraná? Porque estão muito próximos de nós, não há distância suficiente para idealizá-los.
Chegando aos finalmentes, acredito firmemente na ignorância das pessoas que se dizem cultas. Não sou daqueles que consideram que exista ignorância somente entre os pobres. Nem dos outros que acham que pessoas ditas cultas sabem tudo, e podem falar sobre qualquer assunto. Mas se arrogam conhecedores de tudo um pouco.
“Arre! Estou farto de semideuses!”, como dizia Fernando Pessoa. “Podem ter sido traídos - mas ridículos!, nunca”.
Pessoas com posição social mais elevada também têm preconceitos (e como os têm!). Só muda o fato de que chancelam pontos de vista sobre suas preferências culturais com sociologia, citações de Paulo Freire, Lukacs, Marcuse, e às vezes, Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Para essa mentalidade, Tião Carreiro não é “limpinho” o suficiente, não é um preto com chancela, como Pena Branca e Xavantinho, avalizados por Chico Buarque e Milton Nascimento. Carreiro foi avalizado por Almir Sater e Renato Teixeira. Mas nem eles bastam, para quem diz o que pode e o que não pode ouvir.



