Crédito da imagem: Fábio San Juan / Leonardo AI image generator.
Depois de uma festinha democrática borocochô, que despertou entusiasmo somente entre os viciados em política, gente que não tem o que fazer, comento rapidamente as desimportantes eleições de ontem.
Para mim, o sinal mais evidente que o atual sistema representativo está caduco, desimportante e totalmente viciado, é o altíssimo número de pessoas que tem raiva, desinteresse, nojo ou qualquer outro motivo, tipo preguiça ou coisas mais importantes para fazer, que não se manifestaram nesta eleição.
Olha só o número de abstenções nas eleições da cidade de São Paulo e de Piracicaba: a primeira com 27,34% em relação ao número total de eleitores registrados, a segunda ainda mais alta, com 29,11%.
Se somarmos as porcentagens de votos brancos, nulos e abstenções, temos:
São Paulo
Brancos: 3,57% Nulos: 6,24% Abstenção: 27,34%
Total de eleitores que não se manifestaram: 37,15%
Piracicaba
Brancos: 3,90%, Nulos: 4,45% abstenção: 29,11%
Total de eleitores que não se manifestaram: 37,46%
(Fonte: https://www.estadao.com.br)
São números, estes sim importantes, de pessoas que não quiseram escolher nenhum dos candidatos que se colocaram à disposição para ocuparem os cargos de prefeito e vereador.
Conferindo a lista de vereadores eleitos em Piracicaba, vejo que não há grandes novidades, ninguém que salte aos olhos para dizer: “olha só, aqui temos alguém que possa fazer algo diferente, como cortar o próprio salário ou as mordomias como auxílio-residência (??? para quem já mora no município???). Ou deixar de puxar o saco do prefeito, deixar de indicar aliados para secretarias municipais”.
Tenho certeza que tudo vai seguir como antes. Seria a tal “normalidade democrática”? Seguiremos na rotina de não-acontecimentos, não-notícias, desmandos, injustiças e privilégios exclusivos dos, agora nobres, edis?
Quanto à prefeitura, o daqui-a-pouco ex-prefeito Luciano Almeida vai terminar o mandato com a pior votação de um candidato à reeleição, 5.017 votos, menos de 3% dos votos válidos.
Sou solidário a estes eleitores anônimos, meus concidadãos e concidadãs, que, exaustos, com tanta cara-de-pau, hipocrisia, autorregulação de salários e mordomias, disseram um grande NÃO às pessoas que estão se lascando com a adolescente de 12 anos que tem um filho sozinha e mal tem o que dar de comer para si e para o filho, com o pai de família que não tem emprego, com as ruas esburacadas, com a péssima educação nas escolas municipais (e não estou falando de uniformes, mochilas ou tênis novos, estou falando de EDUCAÇÃO), com o total descaso com o fomento de novas empresas na cidade, com as pessoas que enfrentam quatro horas ou mais na fila da UPA ou meses para conseguir uma consulta no Posto de Saúde, com a total incompetência em gerir uma crise como a da pandemia de Covid-19 e o abandono completo da cidade que, ZÁS, acordou brevemente em um espasmo no último ano porque haveriam eleições logo mais e providenciou alguns remendo em tudo o que citei acima.
E ainda lidar, durante a campanha nas ruas, com as caras satisfeitas, sorridentes e felizes de políticos que já ocupam a vereança, como se vivessem em outra dimensão espacial. E também trombando com candidatos cuja única esperança é a de receber um salário muito desproporcional ao que podem fazer efetivamente para melhorar a vida dos cidadãos, ou pelo menos, não atrapalhar, como desabafei no texto de ontem, aqui.
A palavra cinismo vem do idioma grego e quer dizer “agir como os cães”. Quando “agir como os cães” era sinônimo de incivilidade, traição, hipocrisia. Hoje, chamar um político de cínico é um insulto aos pobres dos cachorros, que nada têm a ver com o comportamento premeditado e consciente de pessoas que só querem uma boquinha, para lamber os beiços não só com uma fatia do bolo, mas com toda a confeitaria, se puderem.



