“Jesus na causa” ou “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”? Parte 3
Duas ou três formas de encarar a questão, mas a base é uma só
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Além de Freud e Jesus explicarem as relações sociais e fazerem as suas recomendações de como agir nelas, há outros postulantes de ideias sobre a sociedade que colocam na família o peso do mundo ter chegado ao atual estado.
As correntes de pensamento mais ativas e opostas à visão positiva da família podem ser reunidas num só termo: a Esquerda.
Essas correntes têm origens comuns, se influenciam e se alimentam. Nem todas derivam do pensamento de Karl Marx, mas seus desdobramentos posteriores recebem influência do intelectual alemão; no pior dos casos, a origem comum bebe na mesma fonte, do ressentimento e da inveja. Ressentimento e inveja, que geram uma confiança inabalável na capacidade humana de superar a natureza (diriam os religiosos, um orgulho arrogante, querendo superar a Deus e colocar o Homem em seu lugar): eis os sentimentos básicos que as movem.
Para a Esquerda, a família pode ser reformada, reformatada ou excluída, soluções que variam em cada corrente específica. Não importa: do jeito como está, a família – prioritariamente a monogâmica, composta de homem e mulher biológicos, patriarcal ou nuclear, além de “burguesa” - é vista como um mal.
Porque, no entender de seus pensadores, é uma criação do ser humano, imperfeita e estruturalmente injusta, lastreada na crença do sobrenatural, que para eles, é outra invenção humana, gerada para reforçar e ajudar a perpetuar a exploração do homem pelo homem.
Para estes pensadores, a família também é a origem da sociedade. Isto não é uma descoberta feliz, mas uma gênese trágica. Pois a relação entre pais e filhos, irmãos e parentes, é vista como a origem dos males da humanidade – a propriedade privada, o desejo de ter lucro, as heranças, a exploração e escravização de seres humanos por outros, a desigualdade que priva a todos de liberdade e exclui a possibilidade de fraternidade sincera, sem hipocrisias.
Para a Esquerda, as relações familiares são tão doentias, e ao mesmo tempo, tão profundamente entranhadas na sociedade, que para resolver o problema do Mal no mundo, só restam como alternativas enfraquecer, reformar ou eliminar a família.
Uma família tradicional, seja como modelo, seja como realidade - homem como pai, mulher como mãe, com filhos advindos da relação de ambos – é algo horrível e indesejável para a Esquerda. Na impossibilidade de eliminar este modelo tradicional, uma solução, que está em pleno andamento, é a de estender o conceito de família a grupos que violavam a lei ou a moral vigente, como casais homossexuais e famílias poligâmicas, ou aqueles que, quando existiam, eram contingenciais, frutos de uma necessidade, insuficiência ou fatalidade, como famílias monoparentais.
A solução mais extrema, proposta por vários socialismos utópicos e em alguns casos concretos, implantados por governos (como nos primeiros anos do estado soviético, nos vinte anos iniciais dos kibbutzim israelenses, e parcialmente nos anos de governo de Mao Tse-Tung), é a de substituir as famílias por creches comunais, onde crianças e adolescentes seriam cuidados e educados por funcionários do Estado.
As duas formas acima são teses defendidas, ou soluções realmente implantadas, ao longo de trezentos anos por anarquistas, socialistas utópicos, social-democratas, liberais, marxistas, leninistas, stalinistas, maoístas, e uma infinidade de outras correntes esquerdistas.
Como dizia a frase, descrevendo o que era esperado dos anarquistas de jaqueta de couro, piercings e cabelo cortado somente no meio, no estilo de uma escova de um capacete romano antigo: “Punk que é punk encoxa a mãe no tanque”.
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Para quase todas estas pessoas (pois há a exceção notável dos anarquistas, e teoricamente, marxistas e leninistas que acreditam que o Estado não será necessário na fase final do movimento – e da Humanidade), a fonte de toda a segurança e provimento de todas as necessidades, físicas, emocionais e intelectuais deverá ser o Estado, no futuro onde será implantada a Utopia. A confiança e o amor deverão ser aprendidos e desenvolvidos entre todas as pessoas, numa fraternidade entre cidadãos, e não em famílias.
O Estado, para os pensadores de Esquerda, é o Bem, pois é a encarnação da Boa Vontade entre os Homens, uma fraternidade formada e unida a partir da necessidade de todos, e não da vontade de um Deus transcendente. O Estado, nesta visão, é o Bem Comum institucionalizado, ritualizado e sacralizado, mas de uma sacralidade imanente, brotada da realidade nua e crua, sem idealizações.
A História que importa é a coletiva, e não a pessoal. Freud não tem vez aqui; muito menos Jesus. A vida após a morte só tem sentido se for pensada como o tempo em que a Utopia será concretizada. É uma motivação para o trabalho do presente, visando o bem-estar dos seres humanos que ainda não nasceram, não um ponto de chegada pessoal para o futuro.
Para eles, o mote desta conversa, sobre dar pedras no lugar de pão aos filhos, nenhum sentido faz, porque todos serão cuidados pela Mãe Pátria, pelo Pai Estado. Que nunca falhará, pois é a encarnação de uma vontade coletiva, soberana, pois nascida de uma semente que não pode ser impedida de brotar e crescer, a necessidade de sobreviver. Pensando melhor, para a Esquerda, somente há sentido em cobrar dos governantes a resposta da questão posta. Nesta sociedade ideal, situada em um futuro distante (eles mesmos admitem), seriam eles os zeladores do Estado e por conseguinte, da vontade premente do ser humano que o terá formado e o legitimará.
Mas enquanto esta sociedade ideal não chega, os seus militantes respondem à pergunta de Jesus “Se o seu filho pedir pão, você daria a ele uma pedra?”, de maneiras variadas, mas que também se originam da mesma semente.
Todas as respostas que conheço, vindas desta turma, decantadas num só frasco, assim se apresentariam:
“Enquanto a sociedade sonhada não chega, o pão que consigo é só meu. Se eu dividir com o outro, será para conquistar seu apoio como aliado na luta para construir a sociedade fraterna, ideal, do futuro. Se alguém me explora, ou explora meu aliado, ou pensa diferente de mim, e esse alguém estiver passando fome, não lhe darei pão, é melhor para todos que ele morra”.
Para quem pensa assim, não há filhos, nem amigos, nem estranhos dignos de compaixão. Somente aliados de luta.
Toda a injustiça do mundo vem dos inimigos da luta. Que são aqueles que se comportam como pais e mães ruins, severos, rígidos, disciplinadores, egoístas – governantes, empresários, professores, médicos, padres, e é claro, os próprios pais, mães e irmãos “de sangue”.
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É claro que os cristãos, freudianos e outras pessoas que veem a família como um grupo basilar, mas positivo, enxergam problemas nas relações familiares. Mas estes problemas não são vistos como estruturantes, e sim, como desvios. Ao contrário do que pensam as correntes de Esquerda.
Por mais que haja boas intenções em pessoas que abraçam ideologias de Esquerda – reação saudável entre jovens, que descobrem as injustiças do mundo, uma forma de explicá-las, e talvez, de acabar com elas - os sentimentos que originam essa mentalidade não se sustentam, nem de forma pessoal, nem em filosofias ou políticas que pretendem reformar sociedades.
Se a família é danosa, reformar, enfraquecer ou extingui-la é somente uma das táticas na estratégia da Esquerda de gerar um estado utópico, quando finalmente será o tempo da paz e boa vontade entre os homens, parafraseando Nietzsche. A outra tática é a de simplesmente reduzir o número de pessoas no mundo.
Como já foi demonstrado amplamente na História humana, essa tática é um tiro no pé: as sociedades podem até prosperar materialmente, por um tempo, adotando políticas ou costumes de gerar menos filhos ou colocando o cuidado e educação de crianças em segundo ou último plano. Vemos como a prioridade do bem-estar dos adultos acabou com o Império Romano – o que era a escravidão, mantida pelas guerras (das quais também dependiam os saques, outro dos sustentáculos do império), senão isto? E a política de “uma família, um filho” da China maoísta, que foi abandonada, pois o decréscimo populacional estava causando queda na atividade econômica?
Com o tempo, os malefícios de tais políticas superam os benefícios; os problemas acumulados podem levar países inteiros à bancarrota, irrelevância, dependência externa ou extinção.
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Não se pode escapar da constatação de que as bases do pensamento da Esquerda são o ressentimento, a inveja, o orgulho e o egoísmo. E que o desejo de uma fraternidade entre todos os seres humanos é baseada num desejo infantil de ser cuidado, individualmente, por um Pai e uma Mãe maior que os pais biológicos, e de uma coletividade que é nada mais, nada menos, que uma Superfamília do tamanho de uma nação.
Nisto, cristianismo e as religiões monoteístas como judaísmo e islamismo se parecem com a mentalidade de Esquerda. Na verdade, é o contrário, porque foram as ideologias de Esquerda que derivaram seu pensamento destas tradições religiosas, principalmente do cristianismo. Utopias esquerdistas veem-se como espécies de “realização concreta” dos ideais do cristianismo, com o “aperfeiçoamento” de não dependerem de “práticas e visões ultrapassadas”. Seus pensadores entendem a religião como “ópio do povo”. Mas, embora não admitam na maior parte das vezes, a fundamentação, desenvolvimento e propaganda de Socialismo, Comunismo, Anarquismo são “cristianismos sem Deus”, religiões imanentes, cuja única possibilidade de transcendência é a História – uma sacralidade que não oferece nenhuma esperança pessoal de permanência.
A Esquerda, portanto, quer uma sociedade de irmãos sem pais para educá-los no sentimento da fraternidade. Pois os “pais” incluem os antepassados e seus ensinamentos, que os esquerdistas rejeitam, a não ser o dos mestres de Esquerda - e olhe lá. Por isso, George Orwell inclui o apagamento diário do passado em sua sociedade de pesadelo, no livro 1984, uma sociedade de origem socialista – uma fábula que não é mera precursora dos apagamentos e cancelamentos da Esquerda atual, e sim, desdobramento lógico dos procedimentos de governos e movimentos que Orwell conhecia muito bem, por ter sido comunista de carteirinha.
Outro ponto de contato entre Esquerda e religiões ancestrais é a substituição da família celeste – os deuses domésticos, os antepassados cultuados e respeitados, Cristo, Deus ou Alá, os seus profetas, mestres e figuras sagradas – por um Pai terreno (quase nunca houve uma Mãe como Líder governante). O Grande Líder é a figura divina, onipresente, onisciente e onipotente, como o Deus cristão. Mas, ao contrário de Iavé, possui tais poderes porque emanam do povo e sua vontade – uma ilusão democrática que serve, na prática, para oprimir. Este Líder não pode ser chamado de Pai porque é o “Mais Igual entre os iguais”, como um irmão mais velho. Não é à toa que o Líder da Oceania, no livro 1984, não é o Grande Pai, e sim, o Irmão Mais Velho, tradução mais exata de “Big Brother”.
É possível que as utopias de Esquerda sejam rejeitadas por tanta gente por conta da rejeição ao incesto, diria Freud, entranhada na psiquê de forma profundíssima. Pois uma sociedade de irmãos, liderada por um Irmão Mais Velho, não seria saudável, trazendo a possibilidade muito concreta de gerar somente filhos com deformidades físicas e intelectuais. O que ameaçaria a continuidade da própria espécie.
A continuidade da própria espécie faz parte do instinto de sobrevivência, e é daí que a Esquerda retira outra de suas ideias, distorcendo o instinto original: transforma o desejo de continuidade da vida pessoal nos descendentes que é o desejo natural de paternidade e maternidade, em fraternidade estendida para todos o futuro da Humanidade. Assim, a responsabilidade de gerar filhos é transferida para outros, e dela podem se eximir, sem culpa (mas não sem consequências), todos os que quiserem “gozar a vida” sem filhos.
Mas para muita gente, isso é somente uma demência, uma loucura. Levadas às últimas consequências, esta mentalidade nova chega ao ponto em que grupos de pessoas defendem ações de uma estratégia que causará, simplesmente, a extinção da espécie humana.
É estarrecedor que, contra toda a Natureza – aquela mesma que a Esquerda adora contrariar, superar e substituir – nossa espécie vai se tornando a primeira com potencial de cometer suicídio, quando desdenha a geração de filhos em favor do conforto e boa vida de adultos optantes de infertilidade, ou descuidam da criação e cuidado dos poucos filhos que ainda têm pelos mesmos motivos, estendendo esse desdém e desprezo para todos os seres da própria espécie. Loucura, repito, pois foi a confiança, respeito e união com os semelhantes que possibilitou a nossa sobrevivência, desde os dias em que éramos um tipo esquisito de macaco indefeso, que insistia em andar ereto sobre as duas pernas, acompanhado de outros tantos iguais a ele.



