“Jesus na causa” ou “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”? Parte 2
Eis aqui esse sambinha, feito de uma nota só
A parte 1 deste texto está disponível clicando aqui.
“Se o seu filho te pedir pão, você daria a ele uma pedra?”
A citação não é do texto exato, mas a ideia está contida na argumentação de Jesus de Nazaré, expressa em Mateus 7:9-11, como dito na primeira parte deste artigo.
Interrompi a primeira parte dizendo algo assim: não cuidar direito dos nossos filhos – biológicos, adotivos, espirituais, fraternos - traz muitos problemas à sociedade.
Pois este é o gancho: há outras formas de filiação, além da relação entre pais e filhos, e outras formas de fraternidade, além daquela entre irmãos de uma família com laços de sangue.
Podemos chamar de filiação toda dependência física, emocional e intelectual de crianças, adolescentes e jovens em relação aos adultos. De paternidade-maternidade todo os cuidados concretos que um adulto oferece em relação a pessoas mais novas, cronológica ou emocionalmente, que ele próprio. E de fraternidade toda relação que reconhece a dependência mútua entre pessoas de idade mais ou menos igual - que pode ser chamada conforme a ligação mais próxima ou mais distante: amizade, coleguismo, parceria, cordialidade, gentileza etc.
Nossas relações sociais teriam como base somente três, aquelas aprendidas na família de sangue: a filiação, a paternidade-maternidade, e a fraternidade.
Já diria Freud. Para ele, as relações familiares – calcadas no desenvolvimento sexual - definem a vida psíquica de um indivíduo. Se tudo correr bem, diz o doutor, se todas as fases de desenvolvimento da psiquê (que ele supõe identificar pela primeira vez) seguirem normalmente, o indivíduo estará ajustado e viverá uma vida adulta sadia. Caso contrário, o indivíduo será infeliz. E como ninguém é integralmente ajustado, para ajudar a corrigir os acidentes comuns de percurso, Freud propôs uma terapia que ajusta o indivíduo, a psicanálise. (Simplificando muito, muito mesmo, toda a teoria psicanalítica). Ser um indivíduo com psiquê sadia significaria tratar o parceiro amoroso, o patrão, o empregado, o colega de serviço ou qualquer pessoa na rua como um irmão, filho, pai ou mãe de uma família ajustada.
Também para as religiões tradicionais a família é a base da psiquê e da sociedade. Você sabe que no caso particular do Brasil, estamos falando do cristianismo. A doutrina básica de todas as igrejas cristãs defende que a família é o alicerce de toda a sociedade, incluindo a celeste. Aliás, esta família celeste, com Pai (Deus), Filho (Jesus), Mãe (Nossa Senhora), primos (os anjos), irmãos (os seres humanos) e um filho rebelde (Satanás) é seguido, na prática, como modelo (talvez dissesse Freud: um modelo subsconsciente? Ou inconsciente? Diria Jung: um modelo de arquétipos?) para o comportamento de cada pessoa e todos os grupos sociais.
Tanto para Freud quanto para as grandes religiões, a forma como nos comportamos em relações entre professores e alunos, patrões e empregados, governantes e governados, e até entre amigos, tem como modelo, sedimentado em nossa psiquê, a relação que tivemos na família na qual crescemos. Se não tivermos tido uma família ajustada, ou nem família tivemos, aí se lascou tudo, a pessoa irá sofrer muito mais que manda o figurino social.
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Quando estudamos História, constatamos que foi o cristianismo quem forneceu o principal modelo ético, filosófico, jurídico, de todas as sociedades do Ocidente. Não o único, é certo, mas o mais forte. Um modelo tão forte que mesmo quando não foi seguido na prática, foi referência: movimentos rebeldes, oposições e alternativas a ele pouco escapam de serem paródias da Igreja, espelhos distorcidos, versões editadas da teologia e cultura cristãs.
Este conjunto de ensinamentos é a referência, o ponto de partida de tudo, desde as relações entre vizinhos, regulamentos de grupos para jogar futebol, clubes e associações, empresas, sindicatos, até a Constituição, os códigos civil, penal, jurisprudência de tribunais, e as relações internacionais.
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Sendo ou não famílias patriarcais, monogâmicas ou poligâmicas, monoparentais, de famílias “modernas”, na prática, todas seguem uma regra não-escrita: os filhos confiam em seus pais integralmente, de olhos fechados. Especialmente quando os os pais os alimentam, protegem e educam. Nada falta aos filhos amados verdadeiramente pelos pais, o amor supre até mesmo as lacunas materiais.
O amor dos pais impõe, de bom grado, tirar a comida da própria boca para dá-la aos filhos. A regra não-escrita de “sempre confiar nos pais” deriva deste amor. Os pais que merecem esse nome amam os filhos como a si mesmos. Ou melhor, amam ainda mais os filhos, sacrificando-se por eles – e não me refiro só aos casos extremos, nem o que se chamam “deveres de estado”, como trabalhar para pagar as contas da casa e comprar comida, mas também aos pequenos sacrifícios do dia-a-dia:
Deixar de jogar futebol com os amigos, adiar a ida ao cabeleireiro, sacrificar o descanso da noite ou do fim de semana, remarcar ou cancelar um curso de aperfeiçoamento profissional ou a troca do carro novo, para brincar com os pequenos ou almoçar com os filhos grandes, casados ou que moram em outra cidade, comprar o que eles gostam, ou simplesmente ficar com eles, no lugar de ter, comprar ou fazer algo para si.
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Parece demais expor dessa maneira. Dirá você, “parece um sermão, uma pregação”; você irá rejeitar tudo, dizendo que já sabe dessa confusão toda da modernidade, da antiguidade. Dirá até que sabe como vai acabar esse lenga-lenga, que deitarei falação sobre como as famílias estão despedaçadas, que o mundo anda uma pouca-vergonha, de que não há esperança para o futuro.
Óbvio demais.
Mas eu olho para a minha vizinha. Que não tem marido ou companheiro, e tem só um filho, justinho como o recomendado pelas autoridades de controle de natalidade, um filho que come apenas uma refeição completa por dia, na escola e não em casa, descrita no primeiro artigo. Pergunto-me se, de verdade, todos sabem o óbvio.
Sofremos por falar tantas coisas banais nestes dias de redes sociais, onde nos indignamos por celebridades fazerem isso ou aquilo, exibindo-se por nada e causando vergonha alheia, e ainda nos gabamos por sermos iguais a uma multidão que tem a mesma cara, roupas e trejeitos, que estamos nos esquecendo do óbvio.
Precisamos colocar na roda de novo o “óbvio ululante”, como dizia Nelson Rodrigues. Tão óbvio, que sua presença já não chama mais a atenção, embora clame aos céus por justiça e reparação.
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Insisto na pergunta: “Se o seu filho te pedir pão, você daria a ele uma pedra?”
Fazer o exercício de imaginar-se na pele de outra pessoa pode ser demais para você. Então sugiro que imagine a outra pessoa como um parente muito querido, ou outra pessoa que ama muito.
O que você daria a esta pessoa, se ela te pedisse comida? Iria deixá-la com sede, se ela te pedisse água?
Imagine agora que cada pessoa com quem se relaciona no mundo seja esta pessoa que você ama muito. Como seria o seu dia se tratasse a todos como você trata a sua pessoa amada? E o dia dos outros?
Parece coisa de coaching. Mas estou chegando na minha tese. Acho até que você já percebeu onde quero chegar.
Dirá você: “você está exagerando. Tudo bem quanto à família, mas na sociedade, somos adultos e sabemos o que devemos fazer. Você está querendo que o patrão cuide do empregado como um filho? Que o empregado cuide do patrão como um pai, ou um irmão? Que a mulher cuide do marido, o marido da esposa, o médico do paciente, o funcionário público do cidadão, o comerciante do comprador, o cliente do fornecedor e até o governo dos cidadãos, todos como se fossem pais cuidando de seus filhos, os filhos dos pais, e os irmãos entre eles?”
E respondo: sim, é exatamente isto o que eu estou defendendo.
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Lembro-me do vídeo que vi no Instagram, dia desses, de um patrão que oferta a três funcionárias o custeio de suas faculdades, sem pedir nada em troca.
Não é despesa a que a legislação o obriga. Mesmo não visando isto, o empresário terá funcionárias que trabalharão de forma mais focada, mais tranquila. E ainda poderão, mesmo que a isso não obrigadas, contribuir com os novos conhecimentos no próprio trabalho.
Você pode dizer: este empresário está com segundas, terceiras ou infinitas intenções. Desde exigir mais produtividade em troca do custeio, até favores sexuais. Eu te digo, há maneiras mais simples e mais baratas, incluindo as gratuitas, de assédio sexual; acho que se esta for a intenção do homem, ele é bastante incompetente (em sua má-fé ou malevolência) ou burro (idem, ibidem).
Mas não creio se tratar disso (embora, admito, não seja possível botar a mão no fogo por ninguém): não há como julgar as intenções de qualquer um sem que uma consequência, traduzida num fato real, concreto, se apresente. Por ora, acredito na boa intenção do patrão, sem outro interesse a não ser causar alegria e alívio financeiro para as funcionárias.
Como esta, há uma centena de outras boas ações, exemplos de altruísmo sincero. Você com certeza conhece algumas.
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Calma, ainda não terminou: faltou apresentar a tese que está aí, pendurada no título, à espreita para salvar o mundo. Sim, é ela, a panaceia de todos os males: a Esquerda. Clique aqui para ler a próxima parte, terceira e última desta falação interminável.



