“Jesus na causa” ou “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”? Parte 1
Das pedras, uma limonada
“Se o seu filho te pedir pão, você daria a ele uma pedra?”
Uma criança está com fome. Pede à mãe comida. A mãe o ignora e continua dedando no celular, na frente de casa, sentada na calçada. A criança vai procurar alguma coisa pra comer dentro de casa. Sem ajuda, encontra umas bolachas e um resto de café.
Com o tempo, a criança não pede mais nada à mãe.
Com cinco anos, ela já sabe tomar banho, colocar o uniforme e o chinelo. Às vezes, a mãe berra da calçada para dizer que está na hora. A mulher continua no celular, ou fofocando com os vizinhos na rua.
Na escola, logo ao chegar, às 13h, a criança vai comer um pão com manteiga e beber um copo de leite com achocolatado. Às 15h30, a escola oferece merenda, e ela almoça.
Volta para casa com a mãe, porque a regra do município obriga que um responsável vá buscá-la.
Esta criança, se não encontrar nada que a mãe tenha feito como janta ou resto do almoço, vai comer uma refeição decente de novo somente às 15h do dia seguinte, ou o que tiver na geladeira ou despensa – geralmente, nada.
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Se você é juiz de direito, ganhando todo mês um salário de R$ 60.000, e seu filho pedir um ovo de Páscoa de R$ 250,00, daria a ele um pacotinho de balas?
Ou se é funcionário concursado de uma empresa como a Petrobras ou Banco do Brasil, com salário entre R$ 15.000 e R$ 25.000 (com adicionais e benefícios), e seu filho pedisse um iPhone, você daria a ele um celular de brinquedo, de plástico?
Se for professor de universidade pública com dedicação exclusiva, com salário entre R$ 13.000 a R$ 22.000 (dependendo do tempo que ocupa o cargo), e seu filho pedir uma viagem à Disney, você teria coragem de tentar convencê-lo a ficar tranquilo com uma mera saída ao shopping?
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Pergunto se nós, que somos maus (quem diz isso não sou eu, é Jesus de Nazaré – confiram em Mateus 7:9-11), se a vida nos dá limões, e os nossos filhos pedem uma limonada, o que nós lhes damos?
Uns de nós maltratamos nossos filhos, sendo agressivos, indiferentes, ausentes ou até batendo neles; outros, deixamos de lhes dar pão, doces, iphones, atenção, carinho, amor; outros de nós negamos nossa presença, largando-os para serem criados pelas avós, tias, “aprenderem na escola da vida” ou “serem criados na rua”. Ou até abandonando-os à adoção.
Resposta prática, comum, parte do tal “espírito da época”: quem não quer se preocupar em dar ou deixar de dar qualquer coisa aos filhos, basta decidir não ter filhos.
Ou ter a versão menos trabalhosa de um filho, muito mais compensadora, com retorno emocional garantido: um cachorro ou gato. Fora que ser “pai” ou “mãe de pet”, é opção muito mais aceita no Instagram, no happy hour da firma ou na academia. A gratidão de um cãozinho é eterna, e a sua dependência quanto ao dono, ops, tutor, também. O pet não vai crescer e colocar seu “pai” ou “mãe” em um asilo, ou roubar sua aposentadoria, ou sumir do mapa depois que se casar, fazer faculdade e conseguir emprego. Por conta disso tudo, jamais um pai ou mãe de pet recusará a melhor ração para o seu cachorro, que com certeza, terá mais proteínas que a sua própria ração, ops, refeição.
Afinal, os pais fazem tudo pelos filhos.
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O que não é socialmente aceito é ter mais que um ou dois filhos. Três sempre é demais: é sinal forte de que, ou o casal é rico, ou sendo pobre, é muito ignorante. Em ambos os casos, irresponsável: o desejo de ser mãe e pai, segundo o senso comum, não pode desequilibrar a equação “satisfazer a necessidade da maternidade/paternidade x ultrapassar a possibilidade de proporcionar ao filho uma vida de classe média aquém do razoável”.
No termo “razoável”, embutida está a visão de que a vida é uma merda, a não ser que você tenha dinheiro para os prazeres que compensam estar imerso na latrina; portanto, trazer muitos filhos para o mundo é condená-los à infelicidade, pois terá que dividir o rendimento da família por mais pessoas. Consequentemente, um filho, apenas, será muito feliz, pois terá tudo o que quer. Ter dois já começa a apertar o orçamento dos pais, e condenar a família à infelicidade: como bancar academia, financiamento do carro (sempre renovado), viagens, restaurantes, casa, condomínio e contas, faxineira, roupas e tudo o mais para o casal, somado a tudo o que exige uma criança – escola particular, brinquedos, roupas, McDonald’s, doces, viagens ao Beto Carrero World e à Disney, buffets de festas de aniversário etc. - para uma segunda criança?
De novo, o senso comum do século XXI dirá: tanto ricos quanto pobres, se não quiserem dividir, é só não se multiplicarem.
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É ótimo que haja a opção de podermos escolher ter ou não filhos – a liberdade que a prosperidade econômica traz - sem ironia.
No entanto, como dizia Vinicius de Moraes: “Filhos: se não tê-los, como sabê-los?” Optando por sabê-los, cuidar mal ou não cuidar deles não deveriam ser opções do cardápio. Mesmo que sejam compreensíveis os motivos de pais e mães ruins – ignorância, história familiar, traumas de infância, maus-tratos etc. -, não cuidar de seu próprio filho da maneira carinhosa e atenta como faz uma “mãe de pet” com seu cachorro, ainda não apaga o fato concretíssimo, muito real, de que esta criança continuará sendo maltratada, não cuidada, abandonada, se algo não mudar nesta situação.
Tanto a criança tornar-se-á um adulto com chances maiores de ser infeliz, quanto a sociedade sofrerá de várias maneiras com esse abandono. Consumo de drogas e criminalidade são só as pontas mais evidentes, tem muito mais gelo debaixo deste trágico iceberg.
Não ter filhos não irá minimizar o sofrimento daqueles que não têm pais – presentes de maneira insuficiente, completamente ausentes ou mesmo desconhecidos.
Não cuidar direito dos nossos filhos biológicos, adotivos, espirituais, fraternos, traz tantos problemas à sociedade, que irei tratar deles na parte 2 deste artigo, disponível neste link.



