Pequena História do Desenho de Humor em Piracicaba 04
JIC Mendes e as charges do jornal “A Noite” de São Paulo
Leia os outros capítulos da Pequena História do Desenho de Humor em Piracicaba clicando nos links : Capítulo 01, Capítulo 02 e Capítulo 03.
por JIC Mendes Neto*
Texto adaptado e anotado por Fábio San Juan, do Viletim
do livro “JIC Mendes, ilustrador”, de 2018 Editora Nova Consciência, Piracicaba.
José Ignacio Coelho Mendes nasceu e cresceu em Piracicaba, até o momento de cursar a faculdade. Esteve um ano como aluno da ESALQ. No entanto, mudou de ideia e de cidade, e cursou Engenharia Civil na Escola Politécnica da USP, onde se formou em 1949.
Fez a vida em Itu, cidade onde foi muito atuante, tendo por isso recebido o título de “Cidadão Ituano”. No entanto, sua construtora realizou algumas obras na “Noiva da Colina”, como vários barracões da Dedini, as instalações da Codistil na estrada para Rio Claro e a EEP (Escola de Engenharia de Piracicaba).
Casou-se em 1950, tem seis filhos, 13 netos e 5 bisnetos. Um de seus netos, José Ignacio Coelho Mendes Neto, foi o responsável pela coleta dos desenhos publicados no jornal “A Noite” de São Paulo, no final dos anos 40. A pesquisa resultou em exposição que foi apresentada no 38o Salão Internacional de Humor de Piracicaba, em 2011, e serviu como base para o livro no qual se baseia este artigo.

Trabalho no jornal “A Noite”
Em 9 de setembro de 1947, o jornal paulistano “A Noite” anunciou em sua primeira página, sem medir elogios, a estreia de um novo colaborador: o ilustrador JIC Mendes.
O jovem piracicabano de 21 anos, instalado na capital há três, precisava de um trabalho para se manter enquanto cursava a faculdade de engenharia. Confiante em seu talento de desenhista, juntou numa pasta alguns desenhos e muita coragem e compareceu à redação. Foi recebido por um repórter que gostou dos desenhos e levou-os aos seus superiores. Pouco depois, JIC foi entrevistado por um redator que gastou sua verve para traçar um perfil artístico vagamente baseado nas suas declarações. Estava contratado!

JIC aparece muito sério na foto, como convém ao “adulto” a que se refere o texto de apresentação. Exibe um bigode bem aparado e espessas sobrancelhas estilo taturana e veste um terno impecável, como era costume na época. Cita com adoração sua maior influência, o desenhista Belmonte (que havia falecido em 19 de abril daquele ano), e diz a que veio: produzir desenhos que retratam o “zé-povinho” com compaixão e perspicácia, e lançam sobre seu tempo um olhar “original e diferente”. E foi o que fez nos 7 meses de setembro de 1947 a março de 1948, que renderam 40 ilustrações de temática variada e traço magistral, publicadas sempre na primeira página do vespertino.
[Vale dizer que o jornal “A Noite” era dos “Diários Associados”, grupo empresarial de comunicação que publicava a revista “O Cruzeiro”, “A Cigarra”, e mais uma infinidade de jornais importantíssimos, como “O Correio Braziliense” e “O Diário de São Paulo”. Seu proprietário, o jornalista Assis Chateaubriand, promoveu a criação do Masp – Museu de Arte de São Paulo, que hoje leva o nome dele. JIC Mendes começou a colaborar com o jornal “A Noite” em setembro, na sede da rua Sete de Abril, onde quase um mês depois o Museu teve sua primeira sede instalada. Sede que ocuparia até 1968, quando foi inaugurado o icônico prédio de Lina Bo Bardi, na av. Paulista. Também trabalharam nos “Diários Associados”, nas décadas de 1960 e 70, os artistas piracicabanos Arakén Martins e Ermelindo Nardin. Nota de Fábio San Juan].
Belmonte
O paulistano Belmonte começou sua carreira de desenhista em 1912 (com influência de “90%” do ilustrador J. Carlos, confessa ele). A partir de 1925 até o final da vida, foi caricaturista e cronista diário na “Folha da Manhã” e na “Folha da Noite”.

Nesta última, criou o Juca Pato, personagem que “encarnava as angústias e os problemas do povo” (Leonardo Arroyo no Prefácio a “No Tempo dos Bandeirantes”, p.11). Encarnava o brasileiro médio, indigando com os desmandos da política e dizia-se, “apanhava feito peteca”.O visual do personagem lembra muito a fisionomia de Mario de Andrade, e diz-se que o escritor era fã da figura das charges de Belmonte.

Mais tarde, JIC inspirou-se em Belmonte também na assinatura de seus desenhos, na qual as letras M, E e N do Mendes são formadas apenas por traços horizontais ou verticais.
O dia seguinte ao da estreia
No dia seguinte, “A Noite” não deixou de comentar a transformação do novo cartunista: o semblante sisudo dava lugar a outro, sorridente.
Aqui o risonho desenhista aparece vestido com a mesma elegância da foto da véspera, segurando seu instrumento de trabalho, um lápis de tamanho exagerado. Seria uma premonição de sua futura ligação com Itu, cidade que ainda não era famosa como a terra onde tudo é grande, e que lhe concederia seis décadas mais tarde, o título de cidadão ituano?
Depois do lápis, ele trabalhava a nanquim, repassando os traços do desenho feito no papel vegetal, acrescentando sombras, padrões e texturas (vale reparar na sutileza e variedade dos tecidos desenhados), compondo letras e legendas. Depois de algum tempo, passou a usar também, para fazer as sombras, uma tinta azul que produzia um colorido cinza homogêneo após a impressão. E, além do lápis e do nanquim, trabalhava com muita imaginação e capricho nos detalhes: debaixo do braço lê-se na folha dobrada o nome do jornal que o contratara. É sempre assim: em praticamente todas as suas ilustrações existe o pormenor, às vezes microscópico, que adiciona uma informação de contexto ou uma nota de humor reservadas aos leitores mais atentos – ou possuidores de uma boa lupa.
Uma seleção das charges de JIC Mendes
Terça-feira, 16 de setembro de 1947
Na rua Sete de Abril, onde ficava a redação de “A Noite”, a companhia telefônica havia instalado dutos de ventilação sob as calçadas. O implemento urbano provocou – ou sugeriu à imaginação do JIC – esta cena picante, típica do olhar irônico e malicioso do ilustrador. Vale reparar o artifício técnico: no segundo quadro, o galanteador aparece menor, para sugerir a perspectiva e o deslocamento da moça. E o detalhe cômico: mesmo com a distância, ainda se vê as notas musicais emitidas pelo assobio.
E para quem se lembrou da Marilyn Monroe, que segurava o vestido branco esvoaçante sobre uma grade de ventilação do metrô, sob o olhar ávido de Tom Ewell, vale lembrar que essa cena antológica do filme “The Seven Year Itch” (“O pecado mora ao lado”),[roteiro e direção de Billy Wilder] só aconteceria oito anos mais tarde, em 1955.
Terça-feira, 23 de setembro de 1947
O bigodudo ditador soviético Joseph Stalin, retratado ao gosto da época – e conforme a própria iconografia socialista – com jaleco de gola alta, estrela na lapela e as botas pesadonas da opressão, finge não dar bola para as esbeltas donzelas com as quais o tio Sam pratica uma política da boa vizinhança pra lá de amigável. Nessa releitura de Esopo, Miss América Central e Miss América do Sul são retratadas com os vestidos justos e a cabeleira armada que também caracterizam a personagem de Evita Perón nos traços do JIC (moda que ela abandonaria em prol de outra muito mais comedida após sua turnê europeia).
Terça-feira, 30 de setembro de 1947
O Tio Sam não vira com bons olhos a chamada “Turnê do Arco-Íris” realizada pela primeira-dama argentina Evita Perón na Europa, no Brasil e no Uruguai entre junho e agosto de 1947. O objetivo da viagem fora consolidar sua posição no governo (a participação das mulheres na política [argentina] era proibida por lei), conhecer as obras sociais de outros países a fim de reproduzi-las na Argentina e fazer propaganda do governo populista de seu marido. A propaganda era tanto mais necessária porque o presidente e coronel do Exército Juan Perón era atacado de um lado pelos meios conservadores que se opunham à sua base de apoio militar e sindicalista e às suas políticas trabalhistas e igualitárias; e do outro pelos esquerdistas que o acusavam de simpatia com o fascismo e denunciavam procedimentos autoritários como a censura dos meios de comunicação e a perseguição e tortura contra os comunistas e outros opositores.
A aceitar em nome do marido o convite do ditador espanhol Francisco Franco para uma visita oficial, a ex-atriz e mutiministra incluiu outros países em seu roteiro para sugerir que o fascismo é algo que se evita. JIC colocou no itinerário dela (reparem nos selos colados na bagagem) Madri, Roma, Lisboa, Paris, Londres e Quitandinha, o gigantesco cassino-hotel de Petrópolis. A viajada primeira-dama oferece ao sr. Mundo uma amostra de suas boas intenções na forma de uma maçã com a etiqueta “AMIZADE ARGENTINA”. E de quebra o chargista ainda faz graça com uma certa história bíblica de maçã, protagonizada por outra Eva…
Quinta-feira, 9 de outubro de 1947
Em 1 de agosto de 1947, o aumento de até 100% no preço da passagem dos transportes coletivos provocou um dos mais destrutivos tumultos já ocorridos na cidade de São Paulo. No Largo de São Francisco, na Praça da Sé, na Praça do Patriarca, bondes e ônibus foram apedrejados e incendiados pela população revoltada. Fogueiras arderam por toda a região do Centro. As sedes da prefeitura e da Light foram seriamente depredadas, a da CMTC totalmente destruída. Vinte e sete pessoas saíram feridas. Mais da metade da frota foi inutilizada e foram precisos meses para normalizar a circulação. Esperava-se que a recém-criada CMTC pudesse organizar melhor os transportes, mas não foi a última vez que a empresa tomou medidas impopulares ou que a multidão exprimiu seu descontentamento destruindo o patrimônio público.
A deficiência do transporte público proporcionou oportunidades para os paqueradores motorizados, que se dispunham a socorrer as donzelas abandonadas nas paradas de ônibus. Contudo, a generosidade tem limites, pois o pára-choque do calhambeque avisa: “HOMEM NÃO…”
Quinta-feira, 5 de fevereiro de 1948
A única ilustração do JIC onde aparecem animais falantes. E estes, como os humanos, dão voz ao seu descontentamento diante dos desmazelos da burocracia – embora a perspectiva deles seja um tanto diferente da nossa.
Quinta-feira, 26 de fevereiro de 1948
O PENÚLTIMO desenho do JIC publicado no jornal “A Noite” é também um dos melhores: pela malícia, pelo humor, pelo traço primoroso. A expressão dos rostos é das mais bem-acabadas, os gestos captados em pleno movimento transmitem as intenções e reações das personagens e o significado da situação. Para quem não o conhece, o doutor se chama “A. Guia” – uma verdadeira ave de rapina.
Leia os capítulos da Pequena história do desenho de humor em Piracicaba clicando nos links abaixo:
Capítulo 01: Pioneiros do Desenho de Humor, e primeira charge da imprensa local
Capítulo 02: História do Nhô Quim, mascote do XV de Novembro
Capítulo 03: Renato Wagner e Derli Barroso, na revista Mirante










