O “CANCELAMENTO” SOB ALEGAÇÕES CONSERVADORAS
Nelson foi um dos poucos artistas que foi “cancelado” - censurado, proibido, cortado, recolhido, denunciado e condenado - durante quase toda a vida. É possível afirmar mesmo que foi cancelado durante toda a sua carreira como escritor.
Como eu já disse lá em cima, também merece a “honra” de ter sido tesourado e desprezado tanto por conservadores, nacionalistas, defensores do regime militar, reacionários e liberais (direita) quanto por progressistas, marxistas, sindicalistas e opositores ao regime militar (esquerda).
Sua obsessão pelas paixões familiares, vícios e culpa, e retratando tabus sexuais como incesto, homossexualidade, prostituição, tudo visto pela lente dostoievskiana da “compaixão pelos pecadores” já valeu-lhe a censura com a segunda peça teatral, “Vestido de Noiva”. A peça estreou em 1943, em plena ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas. Mas conseguiu ter trechos inteiros abolidos em apresentações a partir de 1946, em plena redemocratização pós-Vargas. O regime do general Dutra, exaltado pela propaganda como um marco democrático e liberal, mantinha a censura para o “entretenimento público”. O que incluía, é claro, peças de teatro.

Foi a peça “Álbum de Família”, em 1946, ano da posse de Dutra e do novo Congresso, que sofreu o primeiro corte completo das tesouras do novo regime: a peça foi integralmente proibida como uma “monstruosidade moral”, por abordar o tema do incesto de maneira crua, sem disfarces nem eufemismos.
Nelson reagiu à proibição publicamente, dobrando a aposta: com ironia e ferocidade, criou o conceito de Teatro Desagradável para descrever o que fazia; com essa reação, ele inaugurou sua imagem como autor maldito, que foi “colada” à sua persona pública o resto da vida:
“São peças pestilentas, fétidas, capazes de por si sós de produzir o tifo e a malária na platéia”.
Em seguida, ainda durante o governo de Eurico Gaspar Dutra, o autor sofreu com a censura e proibição das peças “Senhora dos Afogados” (1947) e “Um anjo negro” (1948), esta última falando abertamente sobre racismo, e tendo sofrido restrições racistas da própria censura, pois exigia que o papel do protagonista negro fosse desempenhado por um ator branco com a cara pintada de preto (o tal do black face).
Não para por aí. É possível dizer que todas as peças rodrigueanas foram de alguma maneira “canceladas”: “Perdoa-me por te traíres” (1957) teve campanha com abaixo-assinados para sua proibição pela Ação Católica de São Paulo. Motivo? A peça tinha teor “imoral” e “indecente”. “Boca de Ouro” (1959) e “Beijo no Asfalto” (1960) passaram pelo crivo violento do Serviço de Censura de Diversões Públicas. “Boca de Ouro” sofreu ameaças de veto absoluto. Foi liberada sob exigência de cortes textuais específicos e restrição rigorosa para maiores de 18 anos.
Em 1963, até mesmo um disco de vinil com gravações do próprio autor lendo crônicas da série “A Vida como ela é…” teve sua venda retida, depois liberado com restrições a faixas específicas e proibido de ser veiculado nas rádios.
Nos anos seguintes, o regime militar, em 1966, proibiu o romance “O Casamento”, primeiro e único livro de Nelson Rodrigues escrito com seu nome verdadeiro, redigido especialmente para publicação em editora (os anteriores tinha sido publicados sob pseudônimo, como Suzana Flag e Myrna, e na forma de capítulos em jornais e revistas, o “folhetim”). Mereceu a honra de ter sido o primeiro livro integralmente proibido e recolhido das vendas em livrarias pelo regime militar de 1964.

Outras obras, baseadas em obras de Rodrigues ou escritas por ele, foram censuradas a seguir, como a a primeira adaptação do romance “Asfalto Selvagem” [Engraçadinha], em 1964, e “Toda Nudez será Castigada”, de Arnaldo Jabor, em 1972.
Durante a ditadura militar, as emissoras que tentavam produzir teleteatros ou novelas baseadas nos contos do autor recebiam ordens expressas de exibi-los apenas após as 22h, 23h ou na madrugada. O argumento oficial era "proteger os menores", mas o efeito prático era sabotar o faturamento comercial das obras, desencorajando as emissoras de adaptarem o dramaturgo.

E, embora o autor tenha falecido em 1980, a rede Globo teve a novela “O Homem Proibido” (irônico, não?), destinada ao horário das 18h, em 1982, censurada pelo regime, e liberada somente após violentos cortes nos primeiros capítulos. Especialmente nos diálogos cotidianos entre as personagens de Elizabeth Savala e Lídia Brondi, que segundo os censores, tinham "conotações homossexuais", uma paranoia comum do regime com os textos de Nelson.
Clique aqui para ler a parte 3, a última, sobre o “cancelamento” de esquerda sobre Nelson Rodrigues.



