#palavras_gastas: AMOR
Um texto menos engraçado, mas sobre certas coisas, alguém precisa falar
Leiam o texto e vão entender melhor a imagem acima. Eu que fiz, com a ajuda do Microsoft Designer Image Creator.
Este é segundo texto da série #palavras_gastas , o primeiro é #palavras_gastas: Sonho. Clique aí para ler.
O primeiro é mais engraçado (acho) do que o que segue abaixo. Este aqui uma bebida azeda, pra não dizer, amarga. Bem mais pesado. Mas divago. Vamos começar.
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A palavra “Amor” está mais do que gasta. Já desbotou tanto, perdeu o viço, a vida, a credibilidade, que só um engasga-gato do tipo “De Volta para o Futuro 3” vai ressuscitar a coitada.
Cena do filme “De Volta para o Futuro, parte 3”, quando tentam acordar Doc Brown pra vida.
O Amor já foi Tudo, ou seja, Deus. “Deus é Amor”, afirmou João, o evangelista, aquele que, dizem, Jesus amava, a ponto desse amor ser assim mencionado no Evangelho que é ao mesmo João creditado. Alcançar esse Amor é o objetivo deste vida que, dizem, mesmo quem não sabe disto, o procura. Dizem também que este Amor é um Lugar e ao mesmo tempo uma Pessoa.
E segundo aqueles que avalizam a ideia, este Lugar, Pessoa e Sentimento nos amou primeiro, antes mesmo que existíssemos. O negócio difícil, no duro, é amar Deus de volta, que, dizem, não passa de tentativa da nossa parte, mesmo quando vemos o exemplo dos mais esforçados. Mas o prêmio, justamente desses mais teimosos, é a santidade, que não é, nem de longe, a glória de ser representado numa imagem em altares de igreja, e sim, ser amado plenamente por Deus, só pelo fato de se ter tentado com todas as forças. Dizem.
Vê-se, pois, que todo Amor de verdade é recíproco, e a esperança era estarmos tão entranhados neste amor que por fim nos tornássemos iguais a Ele, ou que nos fundíssemos ao Amado: “Transforma-se o amador na coisa amada”, disse Camões (neste belíssimo soneto, que aliás, amo).
Camões.
Então, para nos tornarmos Deus com Deus (e não sem Ele, como quis Lúcifer, que literalmente caiu das nuvens, depois disto a vida dele virou um inferno), ou seja, fazer parte do próprio Amor, valia a pena fazer tudo. Homens e mulheres, querendo provar este Amor como namorados que gastavam-se em suas provas de amor, abandonaram a vida que tinham, venderam tudo, carregaram pedra, beijaram leprosos, pediram esmolas, renunciaram a títulos de nobreza, ou deixaram uma vida segura e tranquila, como São Francisco de Assis, entregaram-se em martírio sendo assados, decapitados, apedrejados, comidos por leões, crucificados, empalados, estripados, ou foram jogados da ponte, como São João Nepomuceno.
Se o Amor é o próprio Deus, e este Amor integral só vai existir mesmo no Mundo depois da Morte, esses sacrifícios compensam. Neste vale de lágrimas não haverá nada minimamente que se lhe compare, que valha tanto esforço. Nem uma noite de amor com a Demi Moore (Robert Redford, estou olhando pra você; gente velha vai entender).
Entendedores entenderão. Ou se lembrarão.
Nesta configuração do jogo do universo, viver para a outra vida faz todo o sentido. Mas viver para se preparar para jogar a próxima fase do videogame, em vez de ficar rodando em círculos nesta, foi uma aposta que especialmente a Europa, também chamada de “mundo civilizado” ou “Ocidente”, bancou por um tempo, depois não quis mais bancar. E partiu para outra.
Partiu para outra, e não sabia onde ia chegar. Parece que, oitocentos anos depois, chegamos a um lugar, mas ninguém imaginava que seria tão feio, escuro e fétido: a pós-modernidade.
Qual lugar mesmo? Vazio existencial, da alma. Vazio da falta de propósito. Vagamos por aí sem saber para onde vamos. Rodamos em círculos.
Só isso? Não é “só isso”, pois esta é, sem tirar nem por, a fonte de todos os males.
Esse vazio da existência nos retirou do campo espiritual, em que o objetivo era alcançar o Amor. O primeiro passo para isso era reconhecer que Deus havia nos amado primeiro. O segundo passo era amar a nós mesmos e ao próximo, e para isso ouvíamos o que Deus tinha nos recomendado para chegar a Ele, e então colocar em prática essas recomendações. Isso era chamado de “virtudes”. A primeira recomendação divina era amar nossos corpos, procurando não os degradar com exageros, os chamados “vícios”, que lhes tiravam a saúde e nos impediam de alcançar o Amor. Uma vida centrada em comer ou fazer sexo demais, ou se drogar, ou ser vaidoso, ou não ajudar os semelhantes, enfim, pensar numa vida centrada nos próprios prazeres ou exclusivo bem-estar, bem, isso impedia de cultivar a alma para amar mais, impedindo-nos de chegar ao Amor maior.
Éramos então, uma Alma que tinha um corpo, que tinha sede do Amor maior, que por Ele era atraído.
No momento em que o Ocidente “partiu para outra” e deu um tchau para Deus (na verdade, um adeus), a primeira coisa que colocou de lado foram as virtudes, ignorando a diferença entre eles e os vícios. Hoje, o que antes era vício virou virtude. Como disse Molière, “Todos os vícios, quando estão na moda, passam por virtudes”. Com a diferença que, hoje, eles não passam por virtudes, eles se transformaram em virtudes. A ponto de ninguém mais saber o que é um, o que é outro.
Não sei muito bem o que o Microsoft Designer Image Creator quis dizer com essa imagem, acho que nem ele.
Começando essa “virada de chave”, os europeus, que tinham as virtudes como objetivo de seu comportamento individual e social, começaram a se permitir uma tal liberdade com os corpos que chegaram ao ponto de fazer o que queriam com eles mas também com os corpos dos outros.
E não estou falando de vinte anos para cá, nem da década de 1960.
A primeira ação nesse sentido foi o “todo mundo é de todo mundo”, no sentido sexual mesmo, que pode ser conferido no “Decameron” de Boccacio. Com o perdão da palavra, um clássico da putaria. Sim, “amor livre” no século XIII. Neste livro, todo mundo pega todo mundo sem respeito e, várias vezes, com extremo desrespeito. Um livro inadmissível antes da Peste Negra do século XIII, a qual fornece o “mote” para que se iniciem as narrativas escabrosas do volume. Uma das fontes para a distorção atual da palavra “amor”.
A segunda grande ação foi a volta da escravatura praticada pelos europeus. Resumindo bem a história: o Império Romano foi abandonando a prática de escravizar as pessoas, por causa do cristianismo. Foi se instituindo a servidão, ou seja, o regime onde as pessoas trabalhavam para um senhor feudal. Não era bom, mas era melhor que ser escravo. Os bárbaros que invadiram o império e o conquistaram mantiveram e aperfeiçoaram este sistema. No processo, os romanos e os bárbaros se juntaram e surgiram os europeus. A partir do surgimento do islamismo, no século VII, piratas muçulmanos invadiram o Mar Mediterrâneo e começaram a sequestrar europeus, em troca de resgate dos mais ricos, ou para vendê-los como escravos, no caso dos mais pobres. Esses escravos europeus eram vendidos para trabalhar nos vários reinos muçulmanos do Oriente Médio, na costa Norte da África ou nos reinos muçulmanos situados na Península Ibérica e na Itália. Ás vezes, até mais longe, nos reinos muçulmanos africanos ou da Ásia. Depois da expulsão dos muçulmanos desses reinos, em guerras que só terminaram no final do século XV, assim como a expulsão dos piratas do Mediterrâneo, que só se concluiu no início do século XIX.
Gravura para lá de manjada e vista, mas a situação é tão absurda que não custa colocar o dedo na ferida de novo. Para que nunca mais aconteça, pelo amor de Deus.
Mas voltando um pouco, com as Grandes Navegações, que começaram na segunda metade do século XV, os países europeus tiveram a faca e o queijo na mão para conquistar os novos territórios que descobriram, na América e Ásia, depois numa segunda fase, na Oceania e na África. Para trabalhar nas plantações comerciais que estabeleceram nestes territórios, em vez de empregar mão de obra assalariada (categoria de trabalho que era utilizada já na Idade Média, de forma imperfeita e diferente da que temos hoje, mas existia), os europeus resolveram investir seus recursos no aprisionamento de seres humanos para trabalhar como escravos, primeiro os indígenas nas Américas, depois os africanos.
Já estávamos então bem distantes das virtudes. Do Amor cristão como pregado pelos Apóstolos então, nem se fala. A Europa mudou a aposta, e dobrou a aposta várias vezes.
Para resumir o texto, que já está gigante, chegamos então à pós-modernidade. Hoje, essa “liberdade” de fazermos o que queremos com nossos corpos, sem os conceitos de virtude e vício para nos guiar, e distantes de um Objetivo, um Propósito para nossas vidas, nos concentramos em tirar todo o prazer possível para proveitos de nossos sentidos, que nossa imaginação possa criar, incluindo o que for mais torpe e doentio.
(Aqui o texto começa a ficar mais pesado. Bem mais pesado. Se tem sensibilidade a assuntos delicados, é melhor parar por aqui. Não diga que não avisei.)
Quando entramos neste lugar feio, sujo e fedido, que chamei de pós-modernidade, nele encontramos:
• Cirurgias de mudança de sexo e terapia hormonal em crianças de nove anos;
• Estupros recorrentes de crianças por pais, responsáveis e parentes;
• Suícidios de crianças e adolescentes, além do aumento de suicídios entre adultos e idosos
• Aumento descomunal da produção e acesso à pornografia, hoje acessada por crianças a partir dos sete anos, ou menos.
• Aumento de casos de pedofilia, inclusive a “consentida” e defendida socialmente por ditos “pensadores” ou “filósofos”.
• Falta da noção de compromisso amoroso, acabando-se as noções de “namoro”, “noivado” e “casamento”, gerando traições recorrentes e “normalizadas”, mas que geram cada vez mais assassinatos passionais, causados por adultérios.
A pornografia também leva à objetificação da mulher (a tal da “reificação” dos marxistas), um dos frutos involuntários da revolução sexual e do movimento feminista. Os homens hoje estão sendo “educados” para tratar as mulheres somente como objetos de prazer, e não pessoas. As mulheres reclamam sua igualdade e acabam indo pelo mesmo caminho. Está se tornando cada vez mais comum, por conta do entorpecimento que o consumo de pornografia causa, buscar prazeres cada vez mais diversificados, e isso tem favorecido a produção de pornografia misturada com violênci, física ou psicológica. O que têm causado mais registros de violência entre casais, ou entre parceiros sexuais. Relatos de decepagem de pênis, por exemplo, têm se tornado cada vez mais comuns. Homens que batem em mulheres também, ou que as matam. Amantes que tramam a morte dos cônjuges, e a concretizam, idem.
Para quem se importa ainda com casamento, constata-se o enorme aumento do número de separações e divórcios. Casar-se é como fast-food, quando você enjoa da comida, troca de lanchonete.
Inclua-se também o aumento dos casos de pedofilia, com aliciamento de menores para fotos e vídeos pornográficos, além da prática mesmo, entre adultos e crianças que são aliciadas ao ato sexual. E a construção acadêmica que está em curso, da aceitação social da pedofilia como algo normal. Como defende este senhor aqui, Stephen Kershnar, professor de filosofia numa universidade norte-americana. No vídeo do YouTube abaixo, ele mesmo diz não entender porque fazer sexo com meninos de 3 anos é crime. (Clique para assistir só se quiser constatar por si mesmo o coração das trevas).
E mais: milhões de abortos, em nome do “Amor”. (Falando o português claro: você troca o seu orgasmo pelo assassinato de um bebê, que é uma pessoa. Parabéns pelo seu “amor” ao próximo e a todas as criaturas viventes do planeta, que neste caso, nem pode se defender.) Milhões de dólares ganhos em clínicas de aborto, em relação direta com os bilhões ganhos com a pornografia.
Tem mais, Arnaldo? Tem: Objetificação das pessoas no trabalho: burnout, estresse, estafa, para os adultos. Idosos abandonados em clínicas (“asilo” não pode falar mais). E o aumento de casos de idosos encontrados mortos em suas casas, às vezes depois de semanas. Por conta de acidentes, idosos que não puderam ser socorridos por morarem sozinhos. E também dos suicídios, especialmente depois da pandemia.
Tudo em nome do “Amor”, livre e “sem amarras”, ou seja, sem compromisso. Como você não tem que ter compromisso com uma rede de fast food, não tem que ter com uma pessoa também no “Amor”, oras, é a lógica do livre mercado. Que virou um sinônimo de “transe com quem quiser, na hora que quiser, se não tiver com quem, consuma pornografia, o importante é ter prazer, afinal, você merece”.
Ou seja, “Amor” é para si mesmo, não é para os outros.
Quando é que “amor” virou sinônimo de sexo? Preciso fazer uma pesquisa para cravar a época exata, se é que houve uma. Desconfio que tenha sido a partir do Romantismo, no século XIX; os “anos loucos” da década de 1920 ajudaram na divulgação da ideia. A Revolução Sexual dos anos 1960 consolidou o pensamento, sintoma de toda uma mentalidade.
Uma noite de sexo (ou alguns minutos dele) virou uma “noite de amor”, melhor ainda se sem consequências, como uma doença venérea ou uma gravidez - enfatizando-se que esta é tratada, muitas vezes, como uma enfermidade grave. Seguindo essa linha do “sexo exclusivamente como prazer” e “pessoas como fins para atingir esse prazer”, nossa mentalidade de livre mercado acabou gerando algo que as pessoas que abraçam esses conceitos nem percebem, acham que estão na vanguarda da Revolução que irá Salvar o Mundo, mas não passam de aderentes de um “Catálogo de Opções de Sexo”, ops, “Opções de como Amar”. O catálogo, para quem não entendeu, é o LGTQPIABOXBLINDEX+++.
(Acesse a Wiki LGTQIA para saber mais sobre os termos, entre outros, nullsexual, xenogênero, abinários, não-binários, espectro assensual, gêneros exclusivos e muito mais!)
O que é mais louco, as pessoas que aceitam se enquadrar nestes “gêneros” são ao mesmo tempo consumidores e mercadorias do catálogo.
O Amor, que entre as gentes, um dia foi Deus, transformou-se no amor-próprio ou “autoestima”, o amor ao deus que se tornou o Ego, do qual, sem coincidência, o tipo de foto que chamamos de “selfie” tornou-se a maior expressão de uma época, que preza os novos “15 minutos de fama” de Andy Warhol, agora 15 segundos de um ato que mira o espelho de Narciso do smartphone, posa, tira a selfie, goza e posta no Instagram, em doce esquecimento de si, solitário e público em um só tempo.










