Parafusos da mente 03: Inteligência Artificial não sabe datilografia
Terceiro artigo de uma série sobre o futuro (e o presente) do mercado de trabalho
Leia a parte 01, clicando aqui.
Todas as vezes que leio sobre o “futuro do trabalho”, fico com dois pés atrás. Porque sou portador de uma dissonância cognitiva, ou um estrabismo emocional, que me impede de achar que o autor do texto esteja escrevendo conselhos que sejam aplicáveis à minha pessoa. Nada daquilo parece escrito para mim.
Não se trata apenas de um complexo de inferioridade. É um distúrbio do tipo que vai mais longe: sinto que uma grande parcela da sociedade brasileira não se aproveitaria de tais conselhos. Vejo os meus vizinhos, num bairro de periferia, e me pergunto: “será que eles sabem que precisam ser disruptivos para garantir o futuro profissional???”
Sinto informá-los, mas o seu curso de datilografia não vai servir pra mais nada.
Quando analistas e influenciadores gritam “adapte-se ao mercado ou morra”, estão falando para uma audiência de classe média-média ou média-alta, com uma qualificação básica “ok”.
Nesta faixa, há mais gente se estapeando por bons cargos do que cargos disponíveis. Sobram os piores para quem não consegue subir a pirâmide empresarial. Por isso, salários e condições de trabalho piores para quem “não se adapta”, e acaba permanecendo na parte menos vantajosa da escala.
Por conta do funil ser muito estreito, só passam por ele aqueles que se diferenciem de alguma maneira.
Assim, surgem as exigências em cada geração, ou um conjunto delas, como ser “generalista”, “eclético”, “multitarefa”, orientado por “mind skills” ou “soft skils”. Tudo para mudar o seu “mindset” e ter um perfil “disruptivo”. Alguns poucos requisitos são os mesmos do tempo dos dinossauros, mas com outro nome, como ser “proativo” (não fazer corpo mole e trabalhar feito camelo, de preferência sem ganhar horas extras).
O mais curioso é que o próprio mercado cria, divulga e anuncia quais serão os critérios que irá avaliar para diferenciar candidatos.
A preocupação do momento é a adaptação à Inteligência Artificial. Para os íntimos, a IA.
O que seria exatamente “adaptar-se à IA”?
As promessas da IA são a de facilitar a vida de bilhões de pessoas. Portanto, formação, treinamento, trabalho cotidiano. Trabalhar ficará mais fácil, e não mais difícil.
Isso significa que teremos que desaprender a fazer um monte de coisas que nos empurraram durante anos, talvez para desocupar o espaço da HD do nosso cérebro, que sabidamente é menor que o dos servidores da Meta ou do Google.
Assim, esqueçam tudo o que veio antes do ChatGPT, do que aprendeu nos cursos de digitação das “escolas de computação” passando por e-mails, MSN, Skype e pacote Office. Se você ainda usa fax, telefone fixo e máquina de escrever elétrica por algum motivo, saiba que os dinossauros ainda caminham sobre a terra, e você é um deles.
Teremos que fazer curso para ditar prompts para o ChatGPT, Gemini ou Grok.
Não pra hoje. Pra ontem.
Nem preciso dizer que a própria “reciclagem”, “atualização”, é a obsolescência programada aplicada às pessoas, em suas carreiras profissionais. Se uma geladeira está programada para durar apenas 1 ano e meio, não pense que o seu curso de torneiro mecânico no Senai, concluído em 1979, ainda vale alguma coisa.
Revolução Industrial 4.0, os robôs do Elon Musk e a renda mínima universal
Minha dúvida é se a Inteligência Artificial é só uma mudança de ferramentas, como o e-mail que substituiu a carta comercial, o Whatsapp que substituiu o telefone, o Slack que substituiu as circulares internas, ou se é mesmo uma mudança real… como disseram que seria a informática, a internet e o smartphone seriam, e acabaram sendo mesmo.
Dizem que esta mudança está inserida na Revolução Industrial 4.0. Sendo que muitas pessoas, ou regiões inteiras do Brasil, não chegaram nem na 1.0, da era a vapor.
A ideia desta revolução 4.0 é substituir tarefas que exigem operações mentais repetitivas por algoritmos e/ou máquinas. Então, na prática, estão nos pedindo que nos adaptemos a mais automação, tanto em tarefas muito simples mas pesadas, como faxina, mas também em tarefas ligadas à programação (web, apps e softwares dedicados), design, e até ilustração e redação de textos.
Minha outra dúvida é: se todos os serviços de baixa qualificação, que são repetitivos, associados com chatice, tédio e falta de sentido, como fazer faxina e coleta de lixo, assim como todos os serviços ligados à limpeza, mas também atendimento em lojas (balconistas e atendentes), auxiliares de escritório, e outras áreas como operadores de máquinas, ou até de apertar parafusos, forem substituídos por máquinas ou sistemas informatizados, o que faremos com as pessoas que ocupavam esses cargos? Já que serão substituídos por robôs, sistemas automatizados, servomecanismos?
Máquinas que substituem seres humanos em tarefas perigosas, como trabalho em minas de carvão e outros minerais, plataformas de petróleo e desarmar bombas, por exemplo, são muito bem-vindas. Mas será mesmo que é necessário substituirmos faxineiras, auxiliares de cozinha, babás, por robôs – como quer Elon Musk, com o Optimus?
A humanidade estará liberada de tarefas repetitivas. E “humanidade”, como quase sempre, são as classes sociais A e B. Da classe C para baixo continuaremos na mesma, tendo que limpar a a casa como sempre fizemos, com vassoura, rodo e pano de chão, Pinho Sol e detergente Limpol, na força do muque ou, no máximo, com um aspirador das Casas Bahia.
No quesito emprego, o “passivo social” será tão grande, que para muitos fará todo o sentido ouvir sobre programas de renda mínima, onde as pessoas receberiam um salário do governo para consumir, para dar conta da produção automatizada. E continuar possibilitando o giro da economia. O problema é conferir ao governo o papel de “patrão do povo”, o que pode gerar distorções políticas, em direção a regimes autoritários ...
(Pera aí...)
Acredito que no Brasil será diferente. A Revolução Industrial 4.0 será adaptada à “cultura local”.
Continuaremos a ser o país onde existe a exótica figura da empregada doméstica e do catador de lixo (ou “reciclador solidário”, eufemismo woke muito ao gosto nacional), e milhões de pessoas continuarão a fazer trabalhos mal-remunerados, porque nossa mentalidade de “Senhor de Engenho” prefere manter esse exército semianalfabeto ou analfabeto funcional, servindo aos que podem pagar para fazerem trabalhos braçais que, nos países desenvolvidos, daqui a pouco tempo serão feitos por robôs.
Enquanto outros farão trabalho em home office, com suas IA’s, assistentes como Alexas, em iphones. Nada contra esse estilo de vida. Somente aviso para que não se esqueçam, o Brasil é craque em separar, de forma muito marcada e estigmatizante, empregas domésticas dos executivos em regime de trabalho híbrido.
A tristeza é que nenhum indicador social nos dá esperança que haja, para curto ou médio prazo, algum sinal que o cenário de péssima formação educacional e/ou profissional da nossa população terá alguma mudança. O que nos levaria, quem sabe, mais próximos das versão 1, 2 e 3 das revolução industrial, para, um dia, aspirarmos à quarta edição do evento. Do jeito que vai, parece que ainda estão garantidos para nós os cômodos e seguros últimos lugares nos indicadores mundiais de bem-estar social e desenvolvimento econômico.
Dessa forma, não há ChatGPT, Gemini ou Grok que deem conta dos retardatários nesta corrida – não uma corrida para sermos os “melhores do mundo”, e sim, uma correri que faça melhorar um pouquinho a nossa vida, neste país de tantas misérias, materiais, culturais, espirituais.
Continuaremos por um bom tempo sendo o país da Alexa movido a lenha.






