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Minhas vozes na cabeça me dão bom dia. Saio à sacada, enxergo a rua e cumprimento o padeiro de bicicleta, o meu pastor, o motorista do ônibus da linha do bairro, o seu Jonas, zelador da nossa igreja.
Aí, o vizinho novo passa. Não cumprimenta. Como sempre.
Minhas vozes gritam a mesma coisa: ele se acha melhor que os outros? Orgulhoso!
O rei na barriga, porque é branco, de olho claro, de óculos e se veste diferente de todo mundo no bairro, se acha melhor que os vizinhos?
A mulher dele costuma passar com uma cruz enorme pendurada no pescoço, com as crianças pequenas. Que são umas quatro, cinco. Ela é uma simpatia, me cumprimenta, até sabe o meu nome.
O marido não, nem olha pra cima.
Resolvo inovar. Da vez seguinte que ele passa na calçada, eu solto um “Jesus te ama”. Me veio a ideia que ele está precisando de Deus no coração, para a pedra se amolecer.
Respondeu: “Ele ama o senhor também... Bom dia!”.
E olhou pra cima, sorrindo.
Não esperava.
Das outras vezes que ele passou, cumprimentou toda vez. Eu já comecei a sair menos para a sacada. Podia ser que ele passasse. Às vezes, estava na conversa da minha cabeça, me distraio, não respondo. Idade, os anos pesam, a cabeça não responde, a boca fecha. Problema nos dois joelhos. Sobrepeso tem custo, afeta tudo.
E agora, tinha que cuidar das crianças da minha nora. Não são todos filhos do meu filho. Ela arrastou o meu filho pra uma casa que é uma creche. Só que a minha casa virou a creche, porque eles dois arranjaram emprego. “O senhor tem que ajudar, não faz nada o dia inteiro, não custa nada”.
Custa o meu sossego de aposentado. Custa o tempo de conversa na minha cabeça.
Custa também a ida à igreja, que é ao lado da minha casa. Nem todos os dias o pastor abre para o culto, senão iria mais vezes.
Muito agradecido a ele, porque me disse que, quando aceitei Jesus, não precisava mais dos remédios. Deus falou comigo pela voz do meu pastor.
As crianças me tiraram do prumo. Quando vi, tinha quatro pessoas me segurando. Não parecia eu, mas era: uma faca na minha mão. Não lembro como ela foi parar ali, se tinha sangue ou outra coisa nela.
Enquanto me seguravam, as vozes gritavam que eu não tinha culpa. Senti uma dor muito grande no peito. Caiu na minha cabeça a lona de caminhão mais pesada que eu já vi.
As coisas sumiram, eu também.
Estou em silêncio há muito tempo. Não sei se tenho mais vozes na cabeça. Não acho minhas mãos para apalpar braços, pernas, cabeça, pés.
Os olhos, só sei deles porque estou mirando para a frente sem me mexer: não consigo. Contemplo eternamente a Glória, ouvindo os cantos ao Altíssimo. Que, acho, deve ser aquela luz, lá na frente.
Nem vozes, ninguém, nem aqueles anjos lá longe, me receberam, falaram comigo, ou me deram bom dia, boa tarde, boa noite.
Aquela luz, tão longe pra mim quanto o Mato Grosso, rodeada de um trilhão de anjos.
Anjos voando
Aquela Luz distante gira, gira, gira
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