Leia os artigos sobre artistas cancelados, clicando nos títulos:
01: Dom & Ravel
02: Wilson Simonal
Parece besteira e até uma obviedade dizer que artistas foram cancelados e perseguidos durante o regime militar de 1964 a 1985, no Brasil, especialmente os de esquerda e os que se opuseram à ditadura - os dois grupos, na cabeça de muitos, senão todos, são as mesmas pessoas.
Mas quando digo “cancelados”, estou tentando estabelecer um paralelo com o que acontece nos nossos dias. Para ser “cancelado”, uma pessoa pública tem sua reputação destruída, arrasa-se sua honra, sua carreira, sua moral - ou pelo menos se tenta.
A ideia, hoje, é que a pessoa pública não consiga mais ter sua voz escutada, que perca seguidores nas redes sociais e audiência presencial, tenha contratos cancelados, e não seja mais chamada para atuar profissionalmente, usando-se o que antes se chamavam “boatos”, “fofocas” ou “mentiras”, mesmo, e que hoje chamamos “fake news”, para causar uma “destruição de reputação”, atualmente caramelizada com os nomes de “cancelamento” e “apagamento”.
No sentido que se dá a essas palavras, atualmente, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e muitos outros artistas perseguidos pela ditadura não foram cancelados, embora indiscutivelmente tenham sido vítimas do regime.
Artistas “cancelados” e “apagados”, indiscutivelmente, foram Dom & Ravel, Wilson Simonal, Geraldo Vandré e Taiguara. Elis Regina foi ostracizada, cancelada, por um período de mais ou menos 7 anos, colocado lá por um companheiro artista, o cartunista Henfil, em 1972. E de lá foi tirada somente em 1979, como é contado num artigo próximo.
Geraldo Vandré foi compositor, em parceria com Théo de Barros, da música “Disparada”, tornada famosa com Jair Rodrigues e vencedora do II Festival de Música Popular Brasileira de 1966. Mas tornou-se para sempre conhecido, e amado, pela canção de protesto “Para não dizer que não falei das flores”, conhecida pelos versos “Caminhando e cantando / e seguindo a canção / somos todos iguais / braços dados ou não…” , que ganhou o segundo lugar no Festival Internacional da Canção de 1968.
A canção tornou-se um hino da resistência estudantil à ditadura militar, e até hoje é cantada por idealistas e militantes de esquerda que veem em seus versos uma inspiração na luta contra o regime capitalista e as ideias de direita.
A música mudou a vida de Vandré em vários sentidos. No dia 13 de dezembro de 1968, o governo federal promulgou o AI-5, o ato institucional mais rígido do regime. Nesse mesmo dia, o músico realizou seu último show profissional no Brasil, na cidade de em Anápolis/GO. Diante da ameaça iminente de prisão, Vandré entrou na clandestinidade e fugiu do país em fevereiro de 1969.
Ele viveu exilado no exterior de 1969 a 1973. Passou inicialmente pelo Chile, mas viajou e morou também em países como Uruguai, Argélia, Alemanha e França. Durante esse período, gravou o álbum Das Terras de Benvirá na França, enquanto enfrentava momentos de depressão severa. Negociou com o jornal O Pasquim a publicação do disco (o jornal estava lançando discos inéditos, além dos jornais semanais; chegou a lançar a primeira versão de Águas de Março, de Tom Jobim).
Vandré voltou ao Brasil em julho de 1973 em circunstâncias misteriosas, através de um retorno negociado com as autoridades da Força Aérea e da Polícia Federal. Ele foi detido ao desembarcar, passou por interrogatórios e foi obrigado a participar de uma entrevista no Jornal Nacional, na Rede Globo, para declarar publicamente que não faria mais músicas de protesto.
Após o retorno, depois do lançamento do álbum inédito (que foi lançado pela gravadora Phillips, e não pelo jornal O Pasquim), abandonou definitivamente o cenário musical comercial e a militância política. Formado em Direito, passou a atuar como advogado e servidor público (como fiscal de autarquia de trânsito em São Paulo, depois aposentado na Sunab). Para surpresa de muitos antigos fãs, compôs a canção "Fabiana", uma homenagem à Força Aérea Brasileira (FAB).
Vandré optou pelo completo isolamento e vive recluso. Suas raras quebras de silêncio ocorreram em março de 2018, quando realizou uma apresentação sinfônica histórica em sua cidade natal, João Pessoa/PB. Após a morte de sua esposa em 2021, ele mudou-se para a cidade de São Paulo, onde vive de forma discreta. Em 2026 chegou aos 91 anos.
Como Dom & Ravel, conseguiu ser odiado e perseguido tanto pela direita, por agentes da ditadura militar, quanto pela esquerda. Ou melhor, pela esquerda, é ignorado, apagado.
Quando o próprio artista resolveu se retirar da vida artística, negando qualquer tortura ou perseguição pela ditadura militar, tornou-se um enigma, um mistério que até hoje não foi desvendado: afinal, ele foi uma vítima ou um colaborador da ditadura? Em ambas as hipóteses, teria aceitado “calar o bico” por medo de ser perseguido e torturado?



