#polêmica: Porque o Brasil não seria uma potência, com o ouro “roubado” pelos portugueses
E porque a máxima histórica do preço do ouro, em janeiro de 2026, é um sinal de tempos difíceis
Este artigo foi motivado pelo recorde que o preço do ouro atingiu no dia 19 de janeiro de 2026.
Nesse dia, o metal precioso atingiu uma marca histórica: pela primeira vez, chegou ao valor de US$ 4.665,77 / onça-troy. “Onça-troy” é a medida de peso utilizada no mercado mundial para pesar o ouro e comercializá-lo, e equivale a 31,10 gramas. É a quarta vez que o ouro atinge uma máxima histórica em seu valor monetário desde outubro de 2025.
Para se ter uma ideia, a barra de ouro mais usada, a “Good Delivery”, aquela que aparece em filmes, tem o peso de 400 onças-troy, ou 12,4 quilos. Um dobrão de ouro, moeda portuguesa do auge do Ciclo do Ouro, em Minas Gerais, de 1720, tinha aproximadamente 53 gramas, ou 1,71 onças-troy.

Se convertermos o valor do ouro de uma barra de ouro e o do ouro utilizado para cunhar o dobrão português (sem contar o seu valor histórico nem o valor de face), temos os seguintes valores em dólares e em reais - valores do ouro e do câmbio no dia 19/01/2026 (Dólar a R$ 5,6488, ouro a US$ 4.665,77 / onça-troy):
Barra de ouro de 400 onças-troy: US$1.800.000,00 ou R$ 10.167.840,00
Dobrão português (valor pelo peso, sem contar o valor histórico): US$ 7.798,46 ou R$ 45.068,76.
Esta notícia de um valor absurdo do metal precioso pode se juntar à ideia de muitos brasileiros de que os portugueses “roubaram o nosso ouro” e gerar impropérios nacionalistas, lamentações de uma glória nacional perdida:
“Se tivéssemos todo aquele ouro roubado, veja só como seríamos trilionários!”
Este ouro dos sonhos, a maior parte extraída das Minas Gerais no século 18, seria uma quantia absolutamente fantástica, uma fortuna talvez comparável às Minas do Rei Salomão. O que faria o nosso país tão rico quanto o reino de Israel da Antiguidade, mas sem nenhuma garantia de que seríamos tão sábios.
Não falarei diretamente do que causou o recorde histórico do ouro, e sim, sobre essa história de Portugal “roubar o ouro do Brasil” e se isso teria feito diferença para a nossa riqueza e desenvolvimento atual.
O objetivo principal deste artigo é expor números e argumentos embasados na História do Brasil, provando que o nosso país não seria mais rico hoje, muito menos uma “potência”, caso Portugal não tivesse explorados os minérios da “Terra Brasilis”.
Situação atual da exploração de ouro no Brasil
Exponho abaixo a situação do nosso país na atualidade, como produtor de ouro, números de produção e comparações com outros países do mundo, para estabelecer um quadro de comparação.
O Brasil está na 7a ou 8a posição entre os maiores produtores de ouro do mundo, de acordo os dados mais recentes, que são de 20241. A produção do metal, neste ano, segundo dados do governo brasileiro, atingiu cerca de 82,3 toneladas (Agência Nacional de Mineração) ou 92 toneladas (Instituto Escolhas).
A exploração das jazidas no Brasil é realizada predominantemente por empresas estrangeiras - Anglogold Ashanti (britânica), Kinross Gold (canadense), Jacobina Mineração e Comércio (canadense), Aurizona (canadense), e várias outras. Da lista das 08 maiores mineradoras, somente uma é brasileira, a Cooperativa dos Garimpeiros do Vale do Rio Peixoto, do estado do Mato Grosso2.
A ANM (Agência Nacional de Mineração), do governo federal, em seu relatório anual “Sumário Mineral Brasileiro 2025”, estima que 7% da produção nacional, em 2024, foi feita por garimpos, legais ou ilegais. No entanto, outras fontes (como o Instituto Escolhas) indicam que este número pode chegar até 25% do total explorado, pois há discrepâncias entre o ouro extraído registrado legalmente e a quantidade exportada.
No mesmo relatório, a agência estima que as reservas de ouro em território brasileiro sejam de 2.400 toneladas. Se fosse possível explorar a totalidade destas reservas, elas estariam esgotadas mais ou menos no ano de 2056, ou seja, daqui a 30 anos, considerando o número atual de 82 toneladas / ano.
Para se ter uma ideia melhor se tal dado é sinal ou não da ideia de que “há muito ouro escondido no Brasil, ainda” e “o Brasil é o país mais rico do mundo, só que ainda não permitiram que a gente soubesse disso”, as maiores reservas estimadas do mundo estão na Austrália (12.000 toneladas), Rússia (12.000 toneladas), África do Sul (5.000 toneladas), Indonésia (3.600 toneladas), Canadá (3.200 toneladas) e demais países somados (25.800 toneladas).3
As Ideias mais comuns sobre o ouro brasileiro
Os nacionalistas suspiram: “Ah, se os portugueses não tivessem roubado o nosso ouro, seríamos hoje o país mais rico do mundo, uma potência!!!”
Nesta frase, há várias ideias implícitas:
1. De que o ouro era do “povo brasileiro”, e não dos portugueses.
2. Variação da ideia anterior: afirmar que os índios eram os legítimos donos da terra, portanto o ouro seria deles. Alguns chegam a dizer que o metal devia ser-lhes restituído, ou ao menos, os índios deviam ser ressarcidos;
3. De que os portugueses roubaram “nossas” riquezas, e que eles não tinham esse direito. Alguns, conhecedores de um tiquinho mais de História, acrescentarão: “na verdade, quem ficou com o ouro foram os ingleses, não sei quem é mais ladrão…”
4. De que, se o Brasil tivesse ainda “o ouro que foi roubado”, seríamos mais ricos e desenvolvidos, estaríamos melhor socialmente, e que, além de termos saúde financeira, teríamos nos tornado uma “potência” em algum ponto do passado que não existiu. Tudo por causa do ouro do qual fomos “roubados”.
Vamos apresentar as objeções, e provas, de que todas estas ideias estão equivocadas, porque se baseiam em fatos que simplesmente não se sustentam do ponto de vista da História e da Economia.
IDEIA 1: O ouro era do “povo brasileiro”
Por que esta ideia está errada?
Porque os habitantes do Brasil, antes de 1822, eram todos cidadãos portugueses, e não brasileiros, mesmo nascidos no Brasil.
Existiam também outros europeus, e estrangeiros de outras nacionalidades, mas eram uma minoria minúscula; também havia escravos, indígenas e africanos, que não tinham status de cidadão. Feita a ressalva, prossigamos.
Não fazia sentido dizer que fossem brasileiros, porque o Brasil não existia como unidade política independente, era uma parte do reino de Portugal, uma colônia. Até 1815, com o decreto por D. João VI do “Reino unido de Portugal, Brasil e Algarves”, quando os habitantes do Brasil passaram a ser chamados de “portugueses da América”4, enquanto os “portugueses da Europa” eram os habitantes de Portugal. Ambos com os mesmos direitos e deveres, segundo a lei do novo reino.
Portanto, não houve “brasileiros” de um lado, e “portugueses” de outro, tendo havido, no máximo, “portugueses de segunda classe”, no período entre 1815 e 1821, do reino unido português-brasileiro.
Não havia um sentimento generalizado de “brasilidade” - algo que historiadores do período da República, justiça seja feita, apontaram como embrionário até 1822, mas não com a ênfase que certos nacionalistas hoje apontam como certa. A identidade nacional brasileira, de fato, começou a ser construída pelo governo imperial de D. Pedro I e mais fortemente com D. Pedro II, que buscou no indígena o substituto do cavaleiro medieval como figura nobre de um passado heróico quando a nação foi construída5. Uma das intenções era diferenciar a nossa da identidade nacional portuguesa.
É curioso, no entanto, constatar que não haveria o Brasil, como um país coeso, falando a mesma língua e com unidade política, se não tivesse ocorrido a exploração aurífera, principalmente em Minas Gerais. Porque sem exploração econômica que justificasse o investimento, Portugal perderia o interesse em continuar com a colônia. Talvez a colônia tivesse se dividido em várias repúblicas, como aconteceu nas colônias espanholas das Américas.
Quem descobriu as jazidas de ouro em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso foram os portugueses. Quem o explorou, recebendo concessões do governo português, foram cidadãos portugueses. Quem tomou posse da terra foi o reino de Portugal, era quem tinha estabelecido a colônia, governando-a. Muitos dos que enriqueceram na colônia do Brasil voltaram a Portugal para desfrutar de suas fortunas.
Outros, permaneceram, tendo formado famílias tradicionais (hoje chamadas de “quatrocentonas”). Famílias que, no momento em que a colônia quis se tornar independente, apoiaram o movimento, porque o governante seria... um príncipe português.
É certo que foi o braço escravo a principal mão-de-obra nas minas, primeiro o indígena, depois o africano. Sem dúvida alguma a escravidão foi uma tragédia humana, com erros escabrosos e muito sofrimento (a própria escravidão já é o erro escabroso, para começar). Mas não foram as injustiças sofridas por indígenas e africanos que forjaram um sentimento de “brasilidade”, nem uma suposta gratidão pela riqueza alcançada pelos portugueses.
Tanto os personagens das sociedades do Ciclo do Ouro não se viam como “brasileiros”, que o movimento da Inconfidência Mineira (1789) pretendia a separação da província das Minas Gerais do resto da colônia. Os inconfidentes não pretendiam que a colônia fosse um só país, queriam que as Minas Gerais fosse um país separado do resto do Brasil, que adotaria um regime republicano, inspirado nos regimes dos Estados Unidos e da França de 1792.
Detalhe: os outros movimentos de independência antes de 1822, como a Conjuração Baiana (1798) e a Revolução Pernambucana (1817), pretendiam o mesmo: queriam separar-se do resto da colônia e proclamariam repúblicas independentes.
IDEIA 2: Os índios eram os donos da terra, o ouro era deles por direito
Por que esta ideia está errada?
Porque os indígenas não eram o “povo brasileiro”, único e coeso. Os povos indígenas nunca se identificaram como “um só povo”, dentro de um território que foi demarcado pelos portugueses e não por eles.
Os “povos originários” sempre foram vários povos, e não “um só povo”, e assim são até hoje. Até mesmo tribos diferentes da mesma etnia eram inimigos, em alguns locais - e antes dos europeus chegarem. Não havia unidade política nenhuma, nem do ponto de vista europeu, nem do seu ponto de vista.
Kaiowá, Mbya e Nhandeva, Tikuna, Kaingang, Macuxi e Terena, Yanomami, Guajajara, Xavante, Pataxó e Potiguara, muitos deles foram inimigos entre si no passado, tendo travado guerras, nas quais havia a captura de combatentes inimigos para consumo de carne human, o “canibalismo ritual”, que na sua crença, faria a transferência da força dos capturados para quem os comesse. Hoje, não há mais canibalismo, nem ritual, e as guerras entre tribos não existem mais. Mas povos que se “estranham” não podem ser confinados nas mesmas reservas.
Não quero, apresentando estes fatos, justificar o gradual desaparecimento dos indígenas do território brasileiro desde 1500, causado por guerras, doenças e outros acontecimentos condenáveis, causados sim pelos portugueses (e num período de 60 anos, compreendido entre 1580 e1640, também por espanhóis).
Mas admitir que houve morte e dizimação das etnias indígenas não as torna automaticamente o “povo brasileiro original”, coesos politicamente, assim como étnica e culturalmente falando. Basta estudar as suas histórias e culturas, várias, e veremos que nem mesmo eles se identificam assim, porque assim não se sentem.
A própria ideia de “Brasil” é-lhes estranha, pois não faz parte de sua mentalidade e cultura estarem agrupados em um território tão imenso, com pessoas de origens tão diferentes das suas.
Outro motivo, também cultural, do porquê dos indígenas não terem explorado metais preciosos antes da chegada dos portugueses, é que eles não davam ao ouro o valor que os europeus lhe davam.
Vamos lembrar que os indígenas brasileiros, de várias etnias, não exploravam nenhum mineral, ao contrário de várias etnias africanas, como bantos e iorubás, que tiveram pessoas escravizadas trazidas para o continente americano. Tecnologicamente, estes africanos já estavam na Idade do Ferro; os nativos brasileiros estavam no equivalente tecnológico do Paleolítico superior (idade da pedra polida). E por isso, não davam valor a metais, muito menos ao ouro.
Por fim, parte do desaparecimento das etnias indígenas deu-se por conta da miscigenação – forçada em muitos casos, em outros casos, consentida. As mulheres indígenas são matriarcas de muitas famílias tradicionais brasileiras, especialmente as das cidades de São Paulo e das mais antigas do interior paulista, como Itu, Sorocaba e Piracicaba.
Portanto, parte do ouro e das riquezas que hoje são produzidas do Brasil pertence a muitas dessas famílias que não são “puro sangue” português, nem índio, nem africano, nem imigrante, mas resultado de uma mistura entre todas estas etnias, muito própria do nosso país, por conta de um sem-número de acontecimentos da nossa história.
Se pensarmos no raciocínio extremo de restituir o ouro, ou parte dele, somente aos indígenas etnicamente puros, ao contarmos os confinados em reservas e também os presentes nas zonas rurais e cidades não-indígenas, veremos que representam apenas 0,83% da nossa população total, segundo o Censo do IBGE de 2022 – aproximadamente 1.693.535 pessoas.
Se tal procedimento fosse adotado, seria justo restituir a “riqueza roubada” somente aos indígenas “etnicamente puros”? Ou os descendentes dos indígenas do passado, “os verdadeiros donos do Brasil”, porém miscigenados, não teriam direito a uma parte dela?
IDEIA 3: Os portugueses roubaram “nossas” riquezas
Por que esta ideia está errada?
Como demonstrado acima, não havia “povo brasileiro” que se enxergasse desta forma antes de 1822, nem os indígenas, nem os africanos escravizados, nem os portugueses nascidos na colônia ou quem nasceu em Portugal mas “fez a vida” aqui.
Éramos colônia estabelecida para ser explorada, e não para ser um novo país, um “lar”6. Um paralelo direto: norte-americanos e chineses pretendem, daqui a alguns anos, estabelecer colônias na Lua ou em Marte, não para se tornarem cidadãos selenitas ou marcianos, mas para explorar as suas riquezas, como o hélio-3.
Essa ideia de “transplantar” a cultura portuguesa, com as devidas adaptações para uma colônia de exploração econômica, é muito bem captada pela canção “Fado Tropical”, de Chico Buarque e Ruy Guerra. Mesmo com a intenção de ser irônica, os autores captam muito bem o espírito colonial português em toda a letra.
“Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal / ainda vai tornar-se um imenso Portugal…”
Se a conquista do território foi ética ou não, se foi justa ou injusta, não cabe discutir aqui. O que de fato houve foi a posse do território pelos portugueses, por mais injusto que tenha sido, teve suas riquezas exploradas, por direito de conquista.
Quando as pessoas dizem do “roubo do ouro” pelos portugueses, faz parecer que eles sabiam que, quase duzentos anos depois das minas gerais serem descobertas, a colônia se separaria de Portugal e formaria um país independente. E que por isso, era preciso “roubar” o máximo de ouro possível. Quem sabe, pensando em “ferrar” os futuros brasileiros…
IDEIA 4: Se o Brasil, hoje, tivesse o ouro roubado pelos portugueses, seria mais rico e desenvolvido, talvez uma potência econômica, como são hoje os países desenvolvidos
Por que esta ideia está errada?
Pessoas que defendem essa ideia estão pensando num “futuro do passado”, uma história que poderia ter existido, um Brasil trilionário com todo aquele ouro sendo explorado por brasileiros e “ficado aqui”. Quem sabe, sendo o capital inicial para o empreendimento de uma “civilização tropical” que se esboçou em alguns períodos, como os anos 1950 e o período de JK na presidência.
É curioso pensar no que o Brasil teria feito com toda essa suposta riqueza, pensando em nosso histórico ético em lidar com, supostamente, muito menos riquezas.
O que nos leva a perguntar: se o Brasil produz, por ano, muito mais riquezas do que todo o ouro extraído durante o Ciclo do Ouro de Minas Gerais, no século 18, para onde vai todo esse dinheiro?
Outra constatação é feita, quando se estuda a História do mundo, que países que não tinham recursos materiais no próprio território foram os que mais se desenvolveram, tornando-se grandes potências. Desde as grandes civilizações da Antiguidade, como o Egito, as cidades-Estado da Grécia, Roma, além dos países modernos, como Inglaterra, Holanda, Alemanha, França. Nenhum deles tinham grandes recursos. Os Estados Unidos, por exemplo, não se tornaram a maior potência mundial porque houve as Corridas do Ouro no século 19, e sim, porque tinham o que chamamos hoje de capital humano, ou seja, cabeças pensantes, educação de qualidade, capacidade de organização social, empresarial e humana, além de mão-de-obra abundante.
Se somente as riquezas naturais fossem o principal motivo que constroi civilizações e sociedades desenvolvidas humanamente, os países produtores de petróleo seriam os mais desenvolvidos, cultos e com melhores índices de desenvolvimento humano do planeta.
Será mesmo que o problema é a presença do ouro em si (e vamos falar, também das outras riquezas)? Será que o problema não é o destino que se dá ao dinheiro que se arrecada com a exploração mineral, ou seja, saber o que fazer com os recursos que se tem?
“Ah, mas você não acha que a quantidade de ouro que roubaram da gente não foi mesmo muito, muito grande?”, pode você perguntar.
Vejamos os números estimados, desde o início, no Ciclo do Ouro, chegando até hoje. Fatos traduzidos em números, e não “achismos” inspirados por chiliques nacionalistas.
É impossível calcular quanto ouro foi extraído exatamente das “minas gerais”, no Ciclo do Ouro, mas as estimativas mais conservadoras falam de um pico na produção entre 1730 a 1760 de 11 a 16 toneladas por ano (conforme diferentes autores). A partir de 1760 a produção foi menor, sendo de 3 a 3,5 toneladas / ano, até chegar o século seguinte, o XIX, quando a produção aumentou um pouco, devido à introdução de empresas inglesas na extração, que trouxeram novas tecnologias. Isso estabilizou a produção anual, durante o período de 1800 a 1900, entre 5 a 8 toneladas anuais.
No século XX, a produção manteve-se estabilizada entre 3 a 5 toneladas / ano, até a descoberta da jazida de Serra Pelada. A sua descoberta, em 1979, elevou a produção total de ouro no Brasil para 100 toneladas / ano, até o final da década de 1980. Tendo diminuído novamente a partir da década de 90, voltou a aumentar por volta de 2010, de novo por conta de tecnologias inovadoras.
Saiba a leitora ou leitor que somente entre 2019 e 2020, foram extraídas no país cerca de 174 toneladas do metal precioso. E que a estimativa da produção de ouro em 2024 é de 83,7 a 92 toneladas (variando de acordo com a fonte).
Portanto, atualmente, em um ano de produção mais baixa, como 2024, extrai-se quase tanto ouro quanto se extraiu em quase 8 anos do Ciclo do Ouro mineiro. E comparado com o ano de pico de 2020, seria o equivalente a 15 anos de produção daquele ciclo.
Nem com tanta riqueza estamos tendo, na década de 2020, uma “Era de Ouro” no Brasil - se contarmos somente a produção do metal. E sim, vemos um desenvolvimento economico ridículo, muito abaixo da média mundial dos países emergentes, inflação alta e índices de desenvolvimento que só pioram, ano a ano.
O ouro, sozinho, não faz a riqueza, nem o desenvolvimento, de uma nação.
Conclusão
A alta do valor do ouro, que vem num crescendo desde 15 de outubro de 2025 até o dia 19 de janeiro de 2026, quebrando 4 vezes a máxima histórica num período muito curto de apenas três meses, reflete uma insegurança mundial.
Os investidores de todo o mundo, quando a geopolítica está instável, voltam-se para recursos considerados mais seguros, e o ouro é ativo sempre no topo da lista, por razões históricas e culturais, que associam o metal precioso à preservação do valor de troca. No caso de uma crise muito feia, em que dinheiro digital e mesmo dinheiro físico estivessem indisponíveis, seria possível, em teoria, trocar ouro por qualquer mercadoria necessária.
As máximas históricas do ouro refletem os movimentos de mudança do tabuleiro global, que tem sua marca inicial com o 11 de setembro de 2001: um mundo estável e garantido pela “Pax Americana” rumou para a instabilidade, imprevisibilidade e desequilíbrio. As invasões russas na Ucrânia e outros países (Geórgia, Chechênia), a instabilidade causada pelas ameaças norte-americanas de ocupação da Groenlândia e sequestro do ditador venezuelano Nicolás Maduro, além de mudanças econômicas causadas por desenvolvimentos tecnológicos como a Inteligência Artificial, que está mudando cadeias produtivas inteiras da noite para o dia, são acontecimentos que levam as pessoas a buscar refúgio no ouro como ativo.
Esse movimento de alta do ouro, porém, não aconteceu ontem, na virada do milênio, mas sim em 1971, com o fim da adoção do padrão-ouro para lastro do dólar. O preço do ouro, antes fixo nos EUA, por decreto do governo, passou a ser flutuante, de acordo com a demanda do mercado. E este só aumentou, por causa das crises do petróleo e instabilidade política global, tendo disparado de US$ 35 para US$ 850,00 / onça-troy em 1980. O preço voltou a diminuir algum tempo depois, mas jamais voltou aos valores anteriores a 1971.
Em 2008, 2011 e 2012, anos de crises econômicas globais, houve novos recordes do preço do ouro, assim como em 2016, e 2020, ano da pandemia de Covid-19.
A valorização do ouro, em vez de despertar inveja, expectativa de lucros altos, alegria ou esperança (ou o lamento por um Brasil que poderia ter sido uma potência, que talvez pudesse trocar a sua quantidade fabulosa de ouro por um valor exorbitante em dólares), deve, sim, acender um sinal de alerta e muita prudência, para que nos preparemos, quem sabe, para tempos difíceis. Pois o preço do ouro em quase US$ 5.000 / onça-troy não significa prosperidade e riqueza, e sim, insegurança e instabilidade num mundo tenso, mais sujeito a guerras, violência e economia desequilibrada.
U.S. Geological Survey (USGS) – Mineral Commodity Summaries: Gold (2024 Edition), disponível em https://pubs.usgs.gov/periodicals/mcs2024/mcs2024-gold.pdf
Anuário Mineral Brasileiro Principais Substâncias Metálicas 2024, disponível em https://www.gov.br/anm/pt-br/assuntos/economia-mineral/publicacoes/anuario-mineral/anuario-mineral-brasileiro/anuario-mineral-brasileiro-principais-substancias-metalicas-2024
Sumário Mineral Brasileiro 2025, disponível em https://www.gov.br/anm/pt-br/assuntos/economia-mineral/publicacoes/sumario-mineral/sumario-mineral-brasileiro-2025 - páginas 60 a 63., pag. 60, citando dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).
Segundo muitos registros do Diário das Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, disponível no arquivo digital da Assembleia da República de Portugal em https://debates.parlamento.pt/
O imperador presidiu a centenas de sessões do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), onde orientava pessoalmente pesquisas sobre o passado nacional e o indígena. O monarca também pagou, do próprio bolso, dezenas de bolsas de estudo de artistas plásticos, músicos e literatos para estudarem na Europa, justamente na época em que o Romantismo era o movimento artístico “da moda” naquele continente.
Ideia explorada por vários, mas Vianna Moog, em seu livro “Bandeirantes e Pioneiros”, de 1954, é o primeiro a analisar com profundidade esta ideia.


